contos da tartaruga dourada

[RESENHA] Contos da Tartaruga Dourada (Kim Si-seup)

Título: Contos da Tartaruga Dourada
Título Original: Geumo sinhwa
Autor: Kim Si-seup
Tradutora: Yun Jung Im
Ano de Publicação Original: por volta de 1470
Ano de Publicação desta edição: 2017
Editora:
 Estação Liberdade
Número de Páginas: 175
Palavras-chave:
 Contos / Contos Coreanos / Literatura Coreana

*Exemplar cedido pela editora.
Resenha por Barbara Filippini.

Capa - Contos da tartaruga dourada

Prosa regada à lirismo, esses contos nos presenteiam muitas informações e também, podem acreditar, literatura fantástica – com todos os elementos que hoje alguns pensam ter surgido com Jorge Luis Borges… Escrito no século XV, por volta de 1470. Nesse tipo de literatura podemos perceber que a até na poesia há indicações eruditas e carregadas de significado histórico, além de, é claro, o lirismo carregado de sentimento.

“(…) És a divindade que vive nas costas do pássaro mítico da lua
E que faz jorrar chuva sobre os Montes da Magia
Sei que não consegues mais voltar para a terra, de tão escuro
E que o céu não pode mirá-la, de tão longínquo
Mesmo que eu volte para casa, não poderei dizer palavra, como que enfeitiçado
E mesmo quando sair, não saberei para onde ir, de tão esparso
Lágrimas cegam a vista cada vez que me posto defronte à faixa que abriga tua alma,
e a tristeza se assoma quando verto bebida
Parece que vejo teu semblante, doce e delicado
Parece que ouço tua voz, sonora e cristalina
Ah, quanta tristeza,
Tua natureza era brilhante
E teus ares, claros,
Ainda que nossas três almas se esvaneçam,
Acaso se esvairia o espírito?
Com certeza descerias do céu para caminhar sobre o nosso quintal
E te demorarias ao meu lado exalando puro perfume
Ainda que os caminhos da vida e da morte divirjam entre si,
Sei que irás te emocionar com estas palavras”

Gostei muito do livro e também desse contato maior com esse tipo de literatura que eu ainda não conhecia. Se você não conhece vale a pena abrir um espacinho na sua lista de leituras e ler. Não é de difícil leitura e é regado de informações.

Mais do que a minha opinião, eu queria deixar aqui algumas informações sobre a obra e o autor que estão ao final dessa edição feita pela Estação Liberdade. Acredito que transcrevendo aqui esse teor estarei passando um conteúdo com mais fidelidade do que pincelar alguns fatos apenas. Explico porquê: esses textos explicativos foram escritos pela tradutora Yun Jung Im que também é mestre em literatura coreana moderna pela Universidade de Yonsei (Seul) e doutora em comunicação e semiótica plela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, além de também lecionar língua e literatura coreanas na Universidade de São Paulo e ter traduzido numerosas obras literárias do coreano para o português.

SOBRE A OBRA (Contos da Tartaruga Dourada) – Yun Jung Im       

*Texto de autoria de Yun Jung Im – transcrito das páginas 169 a 175.

A coleção Contos da Tartaruga Dourada é considerada a primeira obra de ficção coreana em prosa e, apesar de uma certa controvérsia acadêmica sobre o fato, seu valor na história da literatura local como marco e referência é inegável. Deve-se ter em mente que o século XV marcou a consolidação de um Estado coreano – a dinastia Joseon, o Reino das Manhãs Calmas – erigido sobre os ideais confucionistas nos âmbitos moral e político e, por isso, somente escritos relacionados à ideologia e à filosofia confucionistas tinham seus valores reconhecidos, sendo um gênero como a prosa de ficção um terreno inexplorado e improvável. Assim, o desafio de um estudioso e letrado confucionista em criar histórias com a devida erudição que lhe cabia, como expressão de seus ideais sobre o amor, a poesia, a política e o deleite das artes, não deixa de ser um empreendimento surpreendente.

Esta coleção de cinco histórias é também a obra representativa de alguém conhecido nos dias de hoje como um desafortunado prodígio da dinastia Joseon, que foi marcada por episódios sangrentos de golpes e conjurações. Talvez o peso dessa realidade tivesse levado o autor a imaginar experiências sobrenaturais. Nas cinco histórias pode-se destacar uma fértil e lúdica imaginação aliada a uma delicada poeticidade lírica, além da erudição de um letrado confucionista. Seus protagonistas não se ajustam aos padrões socialmente desejáveis, para quem a vida nega os desejos, mas acabam passando por experiências nada ordinárias com seres de outros mundos, que vêm recompensar seus infortúnios terrenos. São também histórias de superação em que os personagens desbravam os próprios caminhos em meio aos obstáculos para a realização dos desejos. Assim, o encontro entre o real e o irreal serve para expressar a determinação inquebrantável em realizar seus sonhos e para buscar sua merecida justiça, e o encontro entre seres reais e irreais sempre termina por provocar uma mudança de perspectiva e entendimento do mundo real pelos personagens, que acabam abandonando o universo dos homens, seja através da morte ou simplesmente por desaparecimento.

Este talvez tenha sido o retrato do próprio autor, que, apesar de seu ideal e talento extraordinário, preferiu viver uma vida de peregrino diante da realidade política que o privou de buscar realizar suas ambições sociais e políticas, e sua forma de superação talvez fosse por meio de um livre trânsito entre o real e o onírico, entre a vida e a morte, entre o destino e a determinação, entre o mundo dos vivos e o dos mortos, entre homens e divindades. Na qualidade de um erudito e letrado em cânones confucionistas, talvez fosse mais natural que o autor não reconhecesse outros mundos além do real e, por isso, a evocação de realidades paralelas pode ser vista como uma estratégia para falar do absurdo da vida real, onde não encontra resolução e, portanto, uma denúncia da realidade e também uma forma de catarse da angústia diante das injustiças. Nesse sentido, as narrativas fantasiosas dos “Contos da Tartaruga Dourada” guardam um teor fortemente participativo e realista, a se ver pelo fato de que, em paralelo à irrealidade das situações, muitas referências coreanas são evocadas – localidades, dinastias, reis, episódios históricos como levantes rurais, invasão de piratas japoneses etc.

Outra combinação notável é que, de um lado as narrativas estão fartamente pontuadas de poesias que revelam a envergadura de um poeta refinado que, ao mesmo tempo lírico, deixa evidente sua erudição nos clássicos chineses, seu livre trânsito entre as filosofias confucionista, budista, taoísta, com referências muitas vezes misturadas, mostrando sua falta de comprometimento com padrões. São elementos que fazem da obra mais do que uma coleção de histórias fantásticas ou fantasiosas. Em resumo, os “Contos da Tartaruga Dourada” oferecem uma arte literária multifacetada em que estão combinadas a prosa e a poesia, a literatura fantástica e a filosófica, a literatura participativa e a lírica, a erudição e o lúdico etc.

Registros mostram que a obra, provavelmente escrita na década de 1470, foi amplamente lida e conhecida por seus contemporâneos, mas, depois de um período, veio a cair no esquecimento, sendo impossível encontrar suas edições no mercado. Entretanto, um volume que havia sido levado para o Japão provocou uma redescoberta local do livro quase duzentos anos depois, na década de 1660, ocasionando seguidas impressões em xilogravura, e ele veio a ser reeditado em 1884 em Tóquio. A obra voltaria a ganhar atenção na Coréia quando, em 1927, durante o período de ocupação japonesa, o poeta e pensador Choi Nam-sun redescobriu a obra no Japão e a publicou na revista literária mensal “Gyemyeong” (Iluminação). Apenas em 1999 é que foi descoberta, numa biblioteca chinesa, uma edição coreana em xilogravura datada do século XVI, certa de cinquenta anos depois da morte do autor. É importante ressaltar que tanto essa edição coreana quanto aquela posterior, japonesa, trazem, ao final, a expressão “Volume Primeiro”, indicando a possibilidade da existência de mais contos a compor volumes ulteriores. Hoje são conhecidos exemplos de oito diferentes edições da obra, sendo cinco delas em xilogravura (uma coreana e quatro japonesas) e três manuscritas, estas últimas transcritas com base nas edições japonesas, antes da descoberta da edição coreana na China. De qualquer modo, não se observam grandes diferenças entre elas.

É comum comparar a obra de Kim Si-seup com a de Qu You, autor chinês de “Jiandeng Xinhua” (Histórias novas ao apagar das lanternas) – a expressão “histórias novas” deve ser entendida como um jogo de palavras com a palavra “mito” (histórias antigas), quase homófonas no chinês (xinhuà e shénhuà) e exatamente homófona no coreano (sinhwa). –, coleção de vinte contos datada de 1378, obra representativa da literatura fantástica chinesa. Embora a influência não possa ser negada, uma vez que a dita obra chinesa foi amplamente lida na Coreia, sobretudo no que tange à temática do amor entre um humano e um fantasma, a obra de Kim traz reflexões filosóficas a respeito da vida e da morte que estão ausentes na de seu suposto inspirador, além de buscar uma estética e aclimatação próprias da Coreia, apesar das referências chinesas. A chamada “literatura fantástica asiática”, originária da China da dinastia Tang, foi o gênero representativo das narrativas do amor em voga na Ásia anteriormente ao advento da modernidade. Nela, o trânsito entre o mundo dos vivos e o dos mortos, e o amor entre os vivos e os mortos constituem elementos temáticos constantes, além da inserção de poemas em sua estrutura para expressar a voz emotiva das personagens, um traço formal que caracteriza o gênero como intermediário histórico entre a poesia e a prosa.

Como é de se esperar, os dois primeiros contos gozaram de maior popularidade, devido à sua temática do amor entre um vivo e uma morta. Por isso, sabe-se que foram incluídos numa antologia de histórias fantásticas do escritor coreano Kim Jib (1574-1656) na primeira metade do século XVI, e também traduzidos para o japonês e incluídos na coletânea “Otogi Boko” (1666), feita pelo escritor Asai Ryoi, junto com as histórias do já mencionado autor chinês.

Por fim, a tradução para o português é resultado da consulta de três edições da obra traduzidas para o coreano moderno, a saber 1) “Geumo Sinhwa”, Kim Si-seup (trad. Kim Gyeong-mi), Seul: Penguim Classics Korea, 2009; 2) “Geumo Sinhwa” Kim Si-seup (trad.: Lee Ji-ha), Seul: Mineumsa, 2009; e 3) “Geumo Sinhwa e Jiandeng Xinhua”, Kim Si-seup e Qu You (Trad.: Kim Su-yeon, Tak Won-jeong, Jeon Jin-a), Seul: Midasbooks, 2010. Nessas edições, também constam fotos da edição coreana em xilogravura, já referida, numa data presumida entre 1546 e 1567, feita pelo escritor coreano Yun Chun-nyeon (1514-1567).

SOBRE O AUTOR – KIM SI-SEUP (1435-1493)
* Texto de autoria deYun Jung Im transcrito das páginas 163 a 167

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Pensador e poeta conhecido como “o gênio desafortunado”, sua fama correu o Reino Joseon (Manhãs Calmas), longeva dinastia coreana que teve início em 1392 e acabou apenas em 1897, já no limiar do século XX. Dizia-se que ele aprendera os caracteres chineses – na época, a escrita coreana ainda não havia sido inventada – aos oito meses de idade e compusera o primeiro poema aos três anos, ao contemplar um moedor de pedra que moía cevada: “Chuva não há, mas de onde vem esse som de trovões? / Nacos de nuvem amarelados se espalham de pedaço em pedaço para as quatro direções”. Sua fama teria alcançado os ouvidos do Grande Rei Sejong – inventor e promulgador do alfabeto coreano em 1446 –, que teria chamado Kim Si-seup quando este tinha cinco anos; impressionado, o rei presenteou-o com uma peça de seda.

Aos quinze anos, quando sua mãe faleceu, ele se mudou para a casa dos avós maternos com o objetivo de prestar três anos de luto, como reza a tradição confucionista (nesse período, o filho suspendeu as atividades sociais e se retirou para um exílio privado). Terminado esse período, casou-se aos dezoito anos e se retirou num tempo budista para estudar, uma vez que passar num concurso público e se tornar um burocrata era tarefa incumbida a todos os filhos de nobres e determinava o sucesso ou o fracasso da família inteira. Então, ouviu a notícia de que o tio do legítimo rei, na época sob regência por ter apenas doze anos, aplicara um golpe na corte para tomar o trono do sobrinho. Indignado, queimou os livros, tornou-se monge e partiu em peregrinação, aos dezenove anos. Por esse episódio, ele ficou conhecido como um dos Seis Súditos Leais, mantendo fidelidade ao herdeiro legítimo do trono à custa de cargos e posições. A fama de Kim Si-seup perdurou durante sua peregrinação em virtude de seus atos bizarros, como mergulhar em um barril de excrementos, sendo muitas vezes apontado como louco. O próprio Kim se denominava “o forasteiro” e dizia que se sentia “como se estivesse batendo uma estaca quadrada num buraco redondo” para expressar sua sensação de intelectual da dinastia Joseon, quem escreveu sua biografia, dizia que seus atos eram de um monge budista, embora tivesse um coração confunciano, afirmação que parece não fazer jus a sua figura como um todo.

De sua sensação de desajuste e impossibilidade de se contentar com uma solução de compromisso com a realidade política, merece menção o poema que ele escreveu já depois dos cinquenta anos de idade, num texto intitulado “minha vida”:

Depois que eu morrer, escrevam na lápide de meu túmulo
Que fui um velho sonhador até o fim     
Direi que terão bem me compreendido            
E que saberão de meus intentos passados mil anos

Em 1463, passados dez anos do golpe, foi chamado para a corte e permaneceu na capela budista do palácio real, participando da tradução do cânone do budismo “mahayana” para a escrita coreana, a qual havia sido criada e promulgada em 1446 pelo Grande Rei Sejong (1397-1450), contra uma história letrada erigida sobre os ideogramas chineses. Em seguida, recomeçou sua peregrinação por dois anos até construir uma cabana na Montanha na Tartaruga Dourada, onde viveu por sete anos, recusando inclusive o convite da corte para novos projetos. Acredita-se que os contos deste livro tenham sido escritos nessa época, motivo pelo qual foram chamados de Contos da Tartaruga Dourada.

Somente aos trinta e oito anos retornou à capital com o desejo de se tornar um burocrata à serviço do rei, mas, sendo reprovado nos exames do concurso público, seguiu de volta para as montanhas. Aos quarenta e sete, interessou-se pela filosofia taoísta e largou a vida de sacerdócio budista, casando-se mais uma vez. Porém, com a morte da esposa no ano seguinte e a notícia de uma tentativa de golpe na corte, resolveu debandar de novo. Voltou a fixar residência, seis anos mais tarde, como mestre particular de clássicos chineses, mas recusou convites casamenteiros, bem como um cargo público. Em 1493, aos cinquenta e nove anos, passou uma temporada num templo budista, onde escreveu o prefácio da edição coreana do cânone do budismo “mahayana”, falecendo dias depois.

Passados dezoito anos de sua morte, iniciou-se, a mando do rei, a coleta de suas obras para publicação. Mas, após dez anos, apenas três livretos de poesias haviam sido reunidos, sendo publicados em 1521. Em 1583, uma nova ordem real fez com que fosse redigida sua biografia, junto com a edição de suas obras completas, compostas de quinze livretos de poesias e seis pensamentos, sob o título de “Coletânea de Mae-wol-dang”, sendo Mae-wol-dang um dos seus nome literários, que significa “casa de quem ama as cerejeiras e a lua” (É conhecido, ainda, pelo nome de guerra Dong Bong (Pico do Leste)). Em 1782, recebeu um cargo póstumo de ministro e, dois anos mais tarde, o título póstumo de “Cheonggan-gong”, cujo significado é “aquele que tem o caráter reto e límpido”. Em 1927, um dos seus descendentes compilou e publicou suas obras completas de 23 livretos em seis volumes.

Em 1973, a coleção ganhou novos livretos, quando os “Contos da Tartaruga Dourada” foram editadas como um volume separado.

 

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