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O Aberto: o homem e o animal (Giorgio Agamben)

Título: O Aberto: o homem e o animal
Título Original: L’aperto. L’uomo e l’animale
Autor: Giorgio Agamben
Tradutor: Pedro Mendes
Ano de Publicação Original: 2002
Ano de Publicação desta edição: 2017
Editora: Civilização Brasileira
Número de Páginas: 162
Palavras-chave: Filosofia Contemporânea – biopolítica – homem – animal

*Exemplar cedido pela editora
Resenha por Juliano Filippini

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Qual a natureza do homem (se é que tem alguma)? De que serve a distinção entre homem e animal? Para quem serve a distinção entre humano e inumano? Embora Agamben não dê uma resposta direta à estas questões elas irão permear “O Aberto”.

De acordo com o autor, tanto teologia quando a filosofia, a política, a ética e o direito estão fundadas nesta distinção – no duplo entre homem e o animal, o homem sendo aquele que nega/rejeita o animal que se encontra nele (ou que seria ele mesmo?). Para tanto, Agaben se utiliza dos pensamentos de Bataille, Kojève, Linnaeus (fundador da taxonomia), Uexküll (fundador da ecologia), Heidegger, Blanchot entre outros, demonstrado que a diferença entre humano e inumano seria apenas uma construção, não havendo base biológica para tanto.

Ao analisar a determinação com que o homem foi inscrito por Linnaeus, Agamben sustenta que a genialidade estaria em deixar de registrar ao lado do nome genérico “homo” qualquer marca específica, mas tão somente o “conhece-te a ti mesmo”, o que teria feito de forma irônica. Neste sentido, o homem não teria qualquer diferença dos outros animais, principalmente antropomorfos, a não ser o fato de poder se conhecer. Afirma, então, “que ‘homo sapiens’ não é, portanto, nem uma substância nem uma espécie claramente definida: é, sobretudo, uma máquina ou um artifício para produzir o reconhecimento do humano.”

Conduz-nos, então, pelo pensamento de Martin Heidegger, concluindo que o ser-aí (Dasein) somente poderia se desenvolver em razão da diferenciação entre homem e animal, uma vez que o animal não seria capaz de se abrir para o mundo e perceber esta abertura para o mundo. No entanto, salienta que atualmente potências históricas (poesia, filosofia religião) não possuem mais força para impulsionar o humano para o aberto, para ir além, uma vez que a tarefa que teria sobrado para os povos (europeus) seria a dá própria existência factual destes povos.

Assim, a preocupação principal seria a gestão integral da biologia humana (biopolítica), ou seja, a primazia de cuidado com a própria animalidade do homem – genoma, economia global, ideologia humanitária. Neste sentido, conclui o autor:

“Se a humanidade que tomou para si o mandato de gestão integral da própria animalidade é ainda humana, no sentido daquela máquina antropológica que, decidindo a cada vez acerca do homem e do animal, produzia a “humanitas”, nem é claro se o bem-estar de uma vida que não se sabe mais reconhecer como humana ou animal pode ser sentido como gratificante. Decerto, na perspectiva de Heidegger, uma tal humanidade não possui mais forma do manter-se aberto ao indesvelado do animal, mas procura acima de tudo abrir e assegurar, em qualquer âmbito, o não-aberto e, com isso, se fecha à sua própria abertura, esquece sua “humanitas” e faz do ser o seu desinibidor específico. A humanização integral do animal coincide com uma animalização integral do homem”.

Assim, a “natureza” do homem, aquilo que o diferenciava do animal, induzindo-o a ir além-do-que-se-é, é tornada inoperante (Blanchot). O que, a meu ver, resultaria na perda de capacidade de agir – no sentido de agir político, tal como exposto por Hannah Arendt em “A Condição Humana”.

Agaben afirma que o “tornar inoperante” a concepção de homem como divisão homem/animal acaba exibindo o vazio central existente entre estas duas “categorias”, possibilitando que nos arrisquemos nesse vazio. A extinção da divisão, portanto, tornaria possível uma nova abertura.

Este foi o terceiro livro de Agamben que li (os dois primeiros foram “Nudez” e “A Comunidade que Vem”) e, embora ainda prefira Roberto Espósito (outro filósofo italiano) não deixo de me surpreender um pouco mais a cada capítulo. O modo como a leitura flui e as questões vão sendo transformadas em outras questões, com a análise de obras de arte e o reflexo/implicação que elas trouxeram em determinadas transformações de mundo. Simplesmente maravilhoso.

Para mim também foi incrível o modo como este livro complementou e se fundiu com outras leituras que estava fazendo (“O Dispositivo da Pessoa” e “Terceira Pessoa”, do Espósito; “Nietzsche and the Questiono of Interpretation: between hermeneutics and desconstruction” do Alan D. Schrift; e “A Condição Humana” da Hannah Arendt – que embora já tenha lido há algum tempo, percebi respingos na obra do Agamben).

Ainda, embora o livro tenha sido publicado em 2002, certamente as reflexões do filósofo ainda se prestam, e muito, para analisar o mundo em que vivemos e para onde vamos (ou não) chegar.

SOBRE O AUTOR – GIORGIO AGAMBEN

agambenNasceu em Roma em 22 de abril de 1942. É um filósofo italiano, autor de obras que percorrem temas que vão da estética à política. Seus trabalhos mais conhecidos incluem sua investigação sobre os conceitos de estado de exceção e “Homo Sacer”.

Formado em Direito, em 1965, com uma tese sobre o pensamento político de Simone Weil, participou dos seminários promovidos por Martin Heidegger, no fim dos anos 1960. Em 1974, transferiu-se para Paris, onde ensinou na Universidade de Rennes 2 – Haute Bretagne. No ano seguinte trabalhou em Londres. Entre 1986 e 1993 dirigiu o Collège International de Philosophie em Paris. De 1988 a 2003 ensinou nas universidades de Macerata e e de Verona. De 2003 a 2009 lecionou Estética e Filosofia, no Instituto Universitário de Arquitetura (IUAV) de Veneza. Em seguida decidiu abandonar a atividade de ensino nas universidades Italianas.

Atualmente Dirige a coleção “Quarta prosa” da editora Neri Pozza. A sua produção se concentra nas relações entre a filosofia, a literatura, a poesia e, fundamentalmente, a política (Fonte da biografia do autor: Wikipedia // fonte da imagem: google imagens).

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