a astúcia cria o mundo

A Astúcia Cria o Mundo (Lewis Hyde)

Título: A Astúcia Cria o Mundo – Trickster: trapaça, mito e arte.
Título Original: Trickster makes this world
Autor: Lewis Hyde
Tradutor: Francisco R. S. Innocêncio
Ano de Publicação Original: 2008
Ano de Publicação desta edição: 2017
Editora: Civilização Brasileira
Número de Páginas: 545
Palavras-chave: trickster – mito – arte – astúcia

a astúcia cria o mundo*Exemplar cedido pela editora.
Resenha por Barbara Filippini.

Se me fosse possível fugir à estrutura estabelecida e adentrar ao “Todo caótico” e à plenitude sem limitações eu o faria para explicar esse livro. Mas como me atenho ao papel do macaco sedento pelos pêssegos maduros, mesmo tendo os olhos de diamante, eu os farei degustar um pouco dessa minha visão sobre o Trickster.

Ao que me refiro nesse primeiro parágrafo? Como assim, “estrutura”?. Bem, para que nos estabeleçamos, em uma estrutura, é necessária a exclusão – para a criação de identidade são necessários aspectos diferenciadores fixos e o que se fixa como concreto exclui as aparas e não dá liberdade para ser outra coisa. Dizem que a identidade define, quase a colocam como algo necessário a se ter, a confundem com caráter e por aí vai… Aqui está: define, põe limites, circunda, põe fim, tolhe possibilidades. A maioria das pessoas encontra-se estruturada assim, por vezes cega e tolhida, seguindo um bando que chamamos de sociedade sem que haja reflexão. O refletir nos traz os olhos de diamante, respeitosos perante o jardim alheio cheio de pêssegos maduros que estamos a cuidar; porém somos ainda tentados para fora da plenitude que nos apresenta milhares de possibilidades de vida e caímos sempre a comer os pêssegos maduros do quintal alheio: nos comparamos, nos cortamos, nos adaptamos e nos formatamos em uma caixinha padrão-sociedade… mas ainda com os olhos a brilhar. A identidade é uma faceta que quis colocar aqui para começar a falar sobre o trickster e sua astúcia.

O Trickster é um ser mitológico que transita entre mundos, por assim dizer, e é quase sempre visto como astuto, no sentido de ser trapaceiro, por não se estabelecer em nada – ele não tem uma identidade fixa. Seu estereótipo está presente em diversas lendas e mitos, em diversas épocas. É um “ser” limítrofe. E por acaso, também não o somos às vezes? Trickster não é deus, mas não se pode dizer que não o tenta. Com sua astúcia, não consegue deixar de provar um pouco de tudo e isso que é sua falha é também sua força. Não estando atado a um só modo de ser, pode ser todos.

Nem que olhássemos a nós mesmos em nossas próprias mentes conseguiríamos decifrar tudo que possuímos em nós. Para alguns é assustador, para mim é encantador. O autor, para ilustrar esse ponto, apresenta o caso da mãe do pequeno Krishna que pede para que ele abra a boca para saber se ele comeu terra e olhando lá encontra o universo e desfalece. Esse pequeno conto, que narrei superficialmente aqui, nos apresenta um exemplo de trickster: Krishna. Nessa narrativa o pequeno Krishna come terra por ser criança e estarem as crianças aptas a conhecerem o mundo e o formá-lo através de suas próprias tentativas, na cultura hindu é saudável que as crianças sejam travessas até os cinco anos e dessa forma descubram o mundo. Mas tudo isso vai muito além, o trickster está para nós como um símbolo, um signo. Através dele podemos inferir diversos significados e reflexões, mas somos NÓS que o fazemos em nossas mentes. É necessário criticidade. A formação do trickster e sua neblina densa que abarca diversas épocas é um estereótipo criado por um pedaço da infinitude de nossos pensamentos.

Outro exemplo de trickster é Exu que é potencialidade liberada. Quase sempre visto erroneamente como um “diabo de outra religião” o Exu está para além disso. É também formado pela criticidade de nossa infinitude mental e artística. Não deve ser visto como poder contido, pois é signo sujeito a transformações que nós o inferimos, é força.

Poderia ainda pontuar aspectos dos mitos gregos que o autor apresenta no livro entre outros, porém o foco aqui é que se entenda a grandeza do tema e por isso sugiro que a leitura atenta do livro pode lhe clarear diversos outros exemplos de trickster. Lewis Hyde apresenta uma visão tão rica sobre esse tema que é difícil condensar uma opinião para expor aqui. É um livro maravilhoso que deve ser lido com toda certeza.

Com sua leitura fluída, cativante e muito informativa Lewis Hyde foi para a minha pasta mental de autores ilustres.

SOBRE O AUTOR – LEWIS HYDE

Lewis Hyde

Nasceu em Boston-EUA em 1945. É membro da Fundação McArthur e ex-diretor do Departamento de Escrita Criativa em Harvard. Atualmente leciona Escrita Criativa no Kenyon College, em Ohio. Pela Civilização Brasileira publicou: “A Dádiva: como o espírito criador transforma o mundo”. (Foto: Google imagens)

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