capa santa clara poltergeist

Santa Clara Poltergeist, a santa prostituta

Título: Santa Clara Poltergeist
Título Original: Santa Clara Poltergeist
Autor: Fausto Fawcett
Ilustração: Theo Szczepanski
Ano de Publicação Original: 2014
Ano de Publicação desta edição: 2014
Editora: Encrenca (Selo da Arte&Letra)
Número de Páginas: 144
Palavras-chave: Ficção Brasileira / Cyberpunk

capa santa clara poltergeist
Capa do livro “Santa Clara Poltergeist”, de Fausto Fawcett (Foto: Barbara Filippini)

Resenha por Barbara Filippini

Antes de tudo quero comentar a edição: A capa é maravilhosamente ilustrada por Theo Szczepanski e diagramada por Frede Marés Tizzot. A edição é perfeita tendo sido revisada por Priscila Buse e Otavio Linhares e publicada pelo selo Encrenca, da Arte&Letra. O outro livro do Fausto Fawcett, também publicado pela Encrenca, é o “Básico Instinto” (estará resenhado aqui no site em breve). Não deixa nada a desejar e é uma edição para se ter em casa!

Vamos ao livro! O que salta à vista em um primeiro momento é: o livro tem um alto teor erótico. Mas será? Em linguagem coloquial: esse livro tem putaria. Não uso esse termo porque se analisarmos bem ele também é carregado de uma visualização pejorativa em relação ao papel da mulher, tanto individualizado como em sociedade. Para quem conhece Fausto Fawcett o que pode vir quase automaticamente à mente é: “mas ele não enaltece as mulheres colocando-as em papéis principais?!”… Continue a ler e você entenderá meu ponto de vista.

Em grossas linhas a história de “Santa Clara Poltergeist” é a seguinte: Verinha, que vem a ser a Santa Clara Poltergeist, é prostituta. Certa vez, em uma de suas andanças, vê uma bicicleta velha e decide que pode arrumá-la. Vai andando com ela até que o banquinho escorrega e o ferro entra em sua vagina… bem, agora você, leitor, pode pensar que ela gritou de dor e foi parar em um hospital. Mas não foi bem isso que aconteceu. Verinha sente prazer com o ferro enferrujado da bicicleta e é essa ferrugem toda que vai para dentro do seu organismo a transformando em um ser quase sobrenatural. Verinha é alçada de simples prostituta à Santa curadora de falhas energéticas ao lado de Ramayana, que ela conhece logo no início da trama. Verinha domina a força kundalini.

Fausto começa o texto em uma velocidade já alucinante, eu diria que é quase um fluxo de consciência. Muito cu, buceta, sexo. Mas, da metade da leitura para frente a impressão é de travamento, as elucubrações para se acabar a trama começam a ser um pé nascendo na cabeça: sem lógica alguma. É como se algo quisesse desenrolar e o autor fosse lá e colocasse um ponto final bem na hora.

Pode-se pensar que o livro, tendo uma linguagem tão “liberal” e colocando uma mulher como papel principal, é um livro libertador em relação à situação da mulher na sociedade e também literatura. Eu não vi assim.

desenho barbara filippini
Desenho que fiz tempos atrás e que acredito que ilustre bem essa resenha. (Foto e desenho: Barbara Filippini)

Se prestarmos atenção, atualmente, toda linguagem ligada à sexualidade e ao corpo pode parecer algo libertador. Mas não se engane. Aqui, em relação à Verinha, temos essa sensação logo no início. Pensamos que ela é a protagonista, outro engano. Pensamos que ela é enaltecida, mais um engano. Em diversas passagens percebi essa incongruência. Cito duas:

Em certa parte quando Mateus (um dos personagens) está falando com Verinha: “Mateus é obrigado a dar-lhe uma bofetada que a desconcerta e acalma por instantes” p. 124.

Em uma passagem em que Verinha esta em um, também preconceituosamente nomeado, “oba-oba espírita”: “Vera tira a máscara de Clóvis e revela sua identidade, mais que conhecida. O respeito é total e as mulatas emocionadas acalmam a figura loura.” p. 138

Por que a necessidade de bater na mulher para que ela se acalme? De onde a ideia de chamar um local de cura de “oba-oba espírita” e ainda enchê-lo de “mulatas” que enaltecem a “loura”? Não é preciso muita perspicácia para ver que isso é totalmente inadequado.

Rama (Fonte: British Museum)
Rama (Fonte: British Museum)

Outra coisa que me vem à mente é a clara ligação do nome Ramayana com o nome Rama de significado real derivado de Ramachandra, que quer dizer “fonte de todo prazer” e mais “o herói a ser seguido”. Por que a necessidade de Verinha estar ligada à Ramayana para obter “sucesso”? Sempre a necessidade de ela estar ligada a algum homem para conseguir se manter! Existirão pessoas a me dizer: “Barbara, leia o texto dentro da licença poética que ele propõe! Não seja tão crítica”. E eu respondo: impossível! Há que se pensar o que se escreve e nisso está inclusa a condição humana. Sem rebaixamentos ou meias palavras.

Para mim, é mais que possível escrever bem sem ter que baixar o nível para cafajestagem canalha e machista. É possível colocar uma mulher como principal em uma trama e também utilizar o tema sexo sem apelar para a diminuição social. Minha impressão desse primeiro contato com a escrita de Fausto Fawcett foi um misto de gostar com não gostar. Poderia ter sido muito bom se não tivesse sido ruim – pelo menos nesses aspectos que elenquei. O tema cyberpunk também é um território gigantesco para se explorar, nesse sentido a escrita segue uma pancadaria alucinante de palavras-soco que fazem você engatar na trama até que ela finalize.

Mais uma vez: jogo o rojão para você, leitor. Seja crítico em suas leituras, pense, criticize o que está à sua frente. O conhecimento sempre é válido!

SOBRE O AUTOR – FAUSTO FAWCETT

fausto fawcettFausto Fawcett, nome artístico de Fausto Borel Cardoso (Rio de Janeiro, 10 de maio de 1957), é um jornalista, autor teatral, escritor de ficção científica e compositor brasileiro. Seu “sobrenome” é uma homenagem à atriz Farrah Fawcett. Seus três principais álbuns gravados são “Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros” (1987), “Império dos Sentidos” (1989) e “Fausto Fawcett e Falange Moulin Rouge” (1993), que têm Laufer como seu principal parceiro. Seu maior êxito nas rádios foi com a canção “Kátia Flávia”, de 1987, em parceria com Laufer. Presente na trilha sonora da novela da Rede Globo O Outro e do filme franco-britânico Lua de Fel (1992), dirigido por Roman Polanski (e estrelado por Hugh Grant e Peter Coyote), a canção foi regravada dez anos depois por Fernanda Abreu. A segunda faixa a emplacar entre as 10 mais do Top-Pop Carioca foi, junto com Fernanda Abreu e Laufer, “Rio 40 Graus”, de 1993, e também utilizada no filme Tropa de Elite (2007), de José Padilha. Seus livros seguem a estética de suas músicas e frequentemente têm como cenário uma versão cyberpunk do bairro de Copacabana, da cidade do Rio de Janeiro. Entre suas obras se destacam Santa Clara Poltergeist (1990), também transformada em show, e Básico Instinto (1992). (Biografia – fonte: wikipedia; foto: google imagens)

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3 opiniões sobre “Santa Clara Poltergeist, a santa prostituta”

    1. a ideia é passar uma crítica sobre o livro, se você concordou comigo fico feliz hahaha mas de qualquer maneira sempre é bom ler e ter contato com esse tipo de literatura para abrir nossos olhos. Às vezes me vejo policiando minhas próprias atitudes porque o machismo é tão arraigado que tem horas que até nós mesmos caímos em algumas armadilhas, né?! Obrigada pelo comentário ❤

      Curtido por 2 pessoas

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