charlotte david foenkinos

A história da artista morta em Auschwitz

Título: Charlotte
Título Original: Charlotte
Autor: David Foenkinos
Tradutor: Maria Alice A. de Sampaio Doria
Ano de Publicação Original: 2014
Ano de Publicação desta edição (Portugal): 2016
Editora: Bertrand Brasil
Número de Páginas: 240
Gênero: Biografia / Literatura / Romance

charlotte david foenkinos
Foto: Barbara Filippini.

Resenha por Barbara Filippini.

Terminei de ler Charlotte uns dias atrás, mas escrevo só agora porque queria terminar de absorvê-lo. Quando vi este livro a primeira vez em uma livraria e o folheei pensei se tratar de um “diário fictício de Charlotte” e por alguma razão não o levei para casa. Mas deixei-o marcadinho com um sinal positivo lá no cantinho da minha mente.

Posteriormente, quando a lista de livros da parceria com o Grupo Editorial Record chegou, lá estava ele entre os possíveis eleitos. Pois bem, como se tratava da narrativa de vida de uma artista que morreu em Auschwitz então resolvi solicitá-lo… meus amigos, que surpresa!

A escrita está longe de ser um mero diário simplório de vida. É a própria vida de Charlotte pulsando nas páginas e querendo colocar em nossas veias o sentimento arrebatador de todos os seus viveres. O autor foi impecável, mesclou sua própria descoberta da vida da artista com a narrativa de vivência tão sofrida e intensa de Charlotte.

Dizer que o livro mexeu com as emoções é entrar em um lugar comum, é estar na antecâmara do que realmente o livro nos faz sentir, o livro está mesmo é no âmbito do sobrenatural.

Sempre que leio temáticas que tratem da segunda guerra mundial isso me toca sobremaneira. Minha família sofreu e padeceu dessa praga, mas alguns se salvaram e cá estou eu a escrever para vocês. É incrível pensar isso e é incrível viver isso nas páginas de um livro. Mesmo que não eu não tenha sofrido diretamente com a segunda guerra mundial eu acredito que esse tema é sempre tocante e serve para nos rememorar que o terror não está tão longe assim e sempre temos que estar atentos às suas garras silenciosas e sombrias – estão sempre prestes a nos atacar. A história deve ser de amplo conhecimento, deve ser repensada e questionada para que não estaquemos novamente em um campo de minas explosivas.

Charlotte enfrentou seus demônios usando a arte. A arte a socorreu no mais fundo dos poços, quando a morte já a puxava pelas mãos e avisava: você tem pouco tempo.

Artista.
Ela repetia essa palavra.
Sem ser, realmente, capaz de defini-la.
Pouco importava.
Nem sempre as palavras precisam de uma destinação.
Deixamos com que parem na fronteira das sensações.
Errante sem cabeça no espaço da desordem.
E é bem esse o privilégio dos artistas: viver na confusão.” p.96.

E aí nos vemos questionando a vida em meios às páginas e ritmo incessantes de Charlotte. Nos vemos dentro da pergunta que ela mesmo se impôs e que gravou em tinta: “vida? ou Teatro?” (nome de uma de suas obras). Estamos nos permitindo viver ou apenas somos autômatos de um sistema pré-posto que tenta nos ditar até as regras de nossa liberdade artística?

Leben oder theater
Obra “Leben oder theater” (Vida? ou Teatro?) de Charlotte Salomon (Foto: Wikipedia)

Nossa vida é arte também assim como a arte que fazemos e tudo se mistura. Tintas da vida na tela com telas em horas e minutos. Viver na secura de algo a imitar o dia a dia sem cor é absurdo… e era o modo de pensar do Partido Nazista. Charlotte ultrapassou os seus anos de vida para nos legar uma eternidade. Arte.

Numa carta, ela escreveu estas palavras como conclusão:
Eu era todos os personagens na minha peça.
Aprendi a seguir todos os caminhos.
E assim tornei-me eu mesma.” p. 195

Obra de Charlotte Salomon
Obra de Charlotte Salomon (foto: wikipedia)
obra de Charlotte Salomon
Obra de Charlotte Salomon, intitulada “Kristallnacht”, que se refere à noite dos cristais (pogrom deflagrado pelos nazistas em 9 e 10 de novembro de 1938 contra os judeus). (Foto: wikipedia).

Não posso deixar de finalizar essa resenha com uma frase que o próprio autor indica como uma possível epígrafe da obra de Charlotte:

A verdadeira medida da vida é a lembrança” de Walter Benjamin.

Charlotte_Salomon_painting_in_the_garden_about_1939
Charlotte em Villa L’Ermitage, Villefranche-sur-Mer, por volta de 1939 (foto: wikipedia)

SOBRE O AUTOR – DAVID FOENKINOS

David_Foenkinos_salon_radio_france_2011Nasceu em Paris em 1974. Estudou Literatura na Sorbonne e é músico de jazz formado. É autor de “A delicadeza do amor”, adaptado para o cinema em 2011. Publicado em 2014, Charlotte rendeu a Foenkinos os prêmios Renaudot e Goncourt des lycéens. No mesmo ano, ganhou também o Globe de Cristal na categoria Romance. (Informações biográficas sobre o autor retiradas da edição lida e foto retirada da Wikipedia).

Anúncios

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s