o rabi de bacherach heine hedra

O Rabi de Bacherach e Três Textos sobre o Ódio Racial

Título: O Rabi de Bacherach e Três Textos Sobre o Ódio Racial
Título Original: Der Rabbi von Bacherach
Autor: Heinrich Heine
Tradução e organização: Marcus Vinicius Mazzari
Ano de Publicação Original: 1840
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2009
Editora: Hedra
Número de Páginas: 128
Gênero: Literatura Alemã / Romance Histórico / Religião

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Resenha por Barbara Filippini

É inadmissível perceber que ainda tenhamos que nos retrair e tomar cuidado a utilizar certas palavras para tratar de certos assuntos, assuntos esses muitas vezes categorizados “espinhosos”. Vamos ao cerne da questão e não nos deixemos enlevar por isso então, aqui o que quero apresentar a vocês é uma opinião embasada na obra de Heine. Claro, pois é uma resenha e nela você encontrará juízos meus. Caro leitor/a, peço que me acompanhe nesse texto.

Heinrich Heine, sob o nome de Harry, nasceu em Düsseldorf no longínquo ano de 1797 e veio a falecer em Paris em 1856. Como você pode perceber, Heine viveu em um período de efervescência de escritores e opinadores de todo o tipo, principalmente políticos e religiosos. Ora, ora, serão esses anos tão longínquos assim? Penso que não. Mas continuemos. Heine não ficava longe desse burburinho.

Nascido em uma família judia e tendo depois se convertido ao protestantismo, Heine escreveu poemas, músicas e também foi correspondente em jornais. Chegou a se encontrar com Goethe em Weimar. Escreveu “Viagem pelo Harz”, “Quadros de Viagem” entre outros. Tentou, com seu trabalho escrito, promover intercâmbio cultural e aproximação entre Alemanha e França, como deixou claro Balzac: “Heine representa em Paris o espírito e a poesia da Alemanha, assim como encarna na Alemanha a crítica francesa mais viva e espirituosa”. Apesar de todo seu prestígio Heine teve prisão decretada em diversas partes da Alemanha e suas obras muitas vezes foram censuradas. Mesmo assim continuou com atividade literária intensa até seus últimos dias, morrendo em consequência de uma doença degenerativa grave.

Heine estabeleceu-se em Paris em 1831, o que depois tornou-se um exílio não podendo mais voltar para Alemanha. Exímio escritor, jornalista e poeta, escreveu sobre diversos temas, dentre eles o antissemitismo e o fanatismo religioso. Um mote para diversos artigos escritos dentro desse gênero foi um progrom deflagrado em Damasco pelo cônsul francês Ratti-Menton. Com base nisso e analisando as ações do diplomata, desdobramentos na capital síria e reações dúbias do governo francês, Heine percebeu novos delineamentos do antigo ódio cristão aos judeus. Tudo isso o incentivou a retomar um projeto de quinze anos intitulado “O Rabi de Bacherach”. E é deste começo de livro que vos falo.

O caso de Damasco em grossas linhas deu-se no seguinte sentido: um padre sumiu e o sumiço dele foi atribuído a uma comunidade judia que já era delimitada a somente um bairro na cidade, já demonstrando que ainda eram tratados como desiguais. Dessa forma deu-se uma matança de judeus visto que muitos eram torturados para assumirem ou apontarem pessoas que supostamente saberiam onde estaria o padre. Juntou-se a isso também a velha crença de que judeus usariam sangue cristão em seus rituais e com isso mais divisórias foram se colocando. Onde entra aqui a presença do cônsul? Bem, ele teria inflamado as questões antissemitas e de forma alguma agiu diplomaticamente. Nessa edição que li encontram-se três artigos destinados ao progrom damasceno e o “O Rabi de Bacherach”.

Heine, influenciado também por sua participação nas atividades promovidas pela Associação para Cultura e Ciências dos Judeus (fundada em 1819 por intelectuais que faziam frente ao antissemitismo) e pelo progrom damasceno, voltou-se ao romance histórico engavetado e o mudou diversas vezes além de ter de lidar com problemas como um incêndio na casa de sua mãe na qual estavam boas partes do manuscrito. Portanto, a obra “O Rabi de Bacherach” é uma obra interminada e foi publicada como fragmento de romance. Apesar de ter se convertido ao protestantismo Heine nunca se afastou do judaísmo e o protegeu sempre que pôde das injustiças deflagradas pela sociedade e governo.

Em “O Rabi de Bacherach”, Heine escreveu sobre o romance do Rabi Abraão com Sara. Neste romance estão aspectos como o fato de antigamente atribuírem aos judeus a matança de cristãos para utilizarem o sangue. O que acontecia era o fato de estranhos colocarem crianças mortas dentro de casas judias para que pudessem incriminá-los e assim matar os judeus e eliminá-los. Essas crianças frequentementes eram transformadas em “santas”, santa hipocrisia. Nessa história existem esses aspectos e tudo acontece no Pessach, a Páscoa Judaica. Rabi Abraão e Sara conseguem fugir para outra comunidade judaica situada em uma localidade fechada e específica para judeus.

Esse é o resumo da obra. Voltemos ao primeiro parágrafo do meu texto. Não sei se vocês percebem, mas o assunto “espinhoso” que tantos ainda não querem tocar diz respeito à questão de que todo esse ódio aos judeus já é antigo e culminou em guerras. Heine escreveu isso antes da primeira guerra mundial o que já eram luzes vermelhas para o que estava por vir.

heinrich heine foto
Heinrich Heine (foto: wikipédia)

Por que citei a vida de Heine? Porque quis mostrar como alguém que se atreve a falar sobre temas sensíveis para um grande número de pessoas e tão claramente assim quase sempre é excluído e rechaçado. No caso de Heine, apesar de sua notoriedade, não houve impedimento para que ele fosse exilado. A França, que foi o país que ele passou a viver, por muitas vezes expulsou os judeus de seu território. Talvez possamos até questionar a conversão ao protestantismo de Heine como algo feito a fim de proteção própria. Enfim, Heine de forma alguma passa a mão na cabeça ou privilegia atos às cegas, pelo contrário. Ele se colocou a favor diversas vezes de que não existissem injustiças tanto para cristãos quanto para judeus e isso pode ser lido em seus diversos artigos.

Em “O Rabi de Bacherach” não foi diferente. Por ser um assunto áspero o livro ficou interminado, mas na parte em que ainda podemos ler vê-se que por vezes o autor deixa transparecer críticas aos próprios judeus tais como: quando Sara desmaia durante a leitura dos textos da Pessach, as mulheres que vão lhe ajudar primeiro lhe jogam água destinada a retirar impurezas para depois lhe acudir e tão logo escutam o recomeço da leitura dos textos saem em disparada para ficar em pé e escutar, ficando poucas a acudir a necessitada. Então eu pergunto: qual o sentido das leituras? E a ajuda ao próximo? Há interesse em ajudar o outro? Acredito que esses também pudessem ser questionamentos do Heine: a mecanização dos rituais, repetidos por mera tradição.

Por outro lado também atento que essas críticas podem ser pertinentes à qualquer viés da sociedade. Seja lá na época em que Heine viveu, seja nos anos que vivemos nós. A mecanização de atos, tradições que são repetidas sem questionamento algum, bonecos vivos que se movimentam feitos zumbis para cumprir o fato de estarem vivos. É para isso que estamos aqui? Por isso digo novamente o que disse no início do texto: é inadmissível que tenhamos que nos retrair para expressar nossas opiniões. Claro, é necessário que se faça pesquisa, que se adentre os temas dos quais se está a comentar para não incorrer em erros. Mas também é necessário que nos expressemos! Ainda digo que PENSAR deveria ser uma atitude mais recorrente não só hoje como sempre.

Leia, analise, comente. Heine nos deixou seus pensamentos sobre os acontecimentos dos anos que ele viveu. Questionou-se, questionou aos outros. Foi recriminado mas aqui está a prova que ele estava com olhos no futuro, ainda hoje é atual e deixa marcado em amarelo vivo que ainda devemos e temos muito a se fazer, haja vista que ainda temos favelas, guerras do tráfico, guerras por terras, guerras por religião etc. Pense nisso.

Mais informações:
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