Capa do livro do espiritual na arte kandinsky

Do Espiritual na Arte (Wassily Kandinsky)

Título: Do Espiritual na Arte
Título Original: Du spiritual dans l’art la grammaire de la création l’avenir de la peinture (em uma tradução livre: Do Espiritual na arte – a gramática de criação do futuro da pintura)
Autor: Wassily Kandinsky
Tradução: Álvaro Cabral, Antonio de Pádua Danesi
Ano de Publicação Original: 1954
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2015 (3ª ed.)
Editora: Martins Fontes
Número de Páginas: 284
Gênero: Arte / Estética / Pintura

Resenha – por Barbara Filippini

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Kandinsky escreve o que pode vir a ser arte, tema tão difícil de conceituar. Essa obra é particular por representar em essência as ideias de Wassily, mas de certo modo é universal caso você a atribua verdade em termos como “vida espiritual” e a bem encaixe nos parâmetros do viver.

O autor usa como pilastra de sustentação a crença na vida espiritual da humanidade, para ele essa vida é equiparada à uma pirâmide em que o ápice é o que de mais espiritual pode se alcançar (muitas vezes estando um só indivíduo isolado nela), e a base representa o mais material.

Essa pirâmide é fluída, ela avança aos poucos. Chegará o dia em que a base estará onde antes esteve o ápice. E é assim que a sociedade por vezes só compreende um artista quando centenas de anos já se passaram, pois somente neste momento a base chega onde antes esteve o artista. Aqui acrescento marcações minhas de o porquê certos artistas sofrerem tanto em vida e serem tão marginalizados: em parte das vezes está o fato de ainda não serem compreendidos, são famosos artistas de vanguarda (do francês avant-garde – parte frontal de um exército).

Nesse livro Kandinsky utiliza a metáfora da pirâmide para tentar explicar a arte e também as cores e seus movimentos. Com certeza não é uma obra sobre “Teoria da cor”, mas bem poderia ser algo como “teoria da cor, explicada por meio da alma”. Para Wassily a atividade criadora artística tem como função revelar os novos parâmetros do progresso espiritual – ou, dentro do que ele expõe: as novas formas de se alcançar o topo da pirâmide, de não ser tão ligado ao material. Não à toa Wassily Kandinsky foi introdutor do Abstracionismo na Arte, por volta de 1910.

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Grüngasse in Murnau (1909 – Kandinsky)
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Murnau – Jardim 1 (1910 – Kandinsky)

O autor critica veementemente a arte que visa só os meios materiais, obtenção de premiações morais alheias, ou ainda que só vise os métodos para criar uma arte sem alma. Explica que muitas vezes os que “tem fome de iluminação” acabam por se passar por loucos. Na página 37:

“No mundo espiritual, ocorrem períodos estéreis, pobres em talentos, em que ninguém oferece aos homens o Pão que dá a iluminação. São os períodos de decadência. Caem incessantemente almas nas partes mais inferiores do triângulo que, em seu conjunto, dá a impressão de estar imóvel. Mas, na realidade, ele retrocede e declina. Nessas épocas mudas e cegas, os homens atribuem um valor especial e exclusivo aos êxitos exteriores. Apenas os bens materiais têm importância; cada progresso técnico que só serve e pode servir ao corpo é saudado como uma vitória. As forças puramente espirituais passam despercebidas.
Os que têm fome de iluminação, aqueles que enxergam, são marginalizados – zombam deles, rotulam-nos de loucos. Mas essas poucas almas resistem e estão atentas. Têm uma necessidade obscura de vida espiritual, de ciência, de progresso. Gemem, inconsoladas e queixosas, no coro dos apetites grosseiros, dos gozadores ávidos dos bens mais materiais. A dúvida tortura essas almas inquietas, a angústia as esgota. Em redor delas, o cinzento se espessa. Mas esse lento obscurecer causa-lhes medo e, em desespero, elas se precipitam na noite.
A arte degradada dessas épocas visa apenas fins materiais. Extrai sua inspiração dos temas mais ignóbeis, porquanto não poderia haver temas nobres para ela.
Os objetos cuja reprodução é o seu único objetivo permanecem imutavelmente os mesmos. De todas as interrogações que a arte pode formular-se só o “como” subsiste. O método que empregará para reproduzir o objeto toma-se, para o artista, o único problema: é o “credo” de uma arte sem alma”.

Para além de qualquer aspecto religioso-dogmático há que se admitir que o universo é feito de energia e que a partir disso há sim interações sociais e movimentações a se elevar, ou diminuir, o patamar intelectual dos povos. É nisso que eu encaixaria o espiritual de Kandinsky. Acredito igualmente que a arte é um meio de elevação cultural e intelectual e que por meio dela podemos “elevar a pirâmide”. Certa vez li um texto de Bergson acerca da intuição filosófica e pode ser que a intuição muito se equipare a um processo criativo que “eleva a pirâmide” (mas esse tema fica para um próximo texto).

Esse espiritual, ou energético-social, faz com que muitas vezes certos indivíduos fiquem isolados – pois estão mais acima na pirâmide, não tão apegados às técnicas materiais.

Acerca de mais um tópico tratado por Kandinsky: as cores. O modo como se colocam as cores em um quadro podem trazer diversas mensagens e movimentos, isso é fato. Wassily nos mostra alguns pensamentos acerca disso. Mas também eu os questiono sobre como certas obras carregadas das cores mais quentes (vermelho, amarelo etc.) e que supostamente deveriam nos passar felicidade, passam-nos tristeza ou espanto? Aqui, basicamente é um modo de se enxergar a arte em sua crueza, diria. É uma forma “fácil” de se questionar o andamento espiritual social.

Quando puder faça um exercício interior em exposições, museus. Deixe-se caminhar por dentro de si e questionar junto com a obra, verás que há movimentação e energia.

SOBRE O AUTOR – WASSILY KANDINSKY

foto de Wassily Kandinsky Nasceu em 16 de dezembro de 1866 e morreu em 13 de dezembro de 1944. Foi artista plástico russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das artes visuais. Foi também um dos artistas mais importantes na total reformulação da arte no início do século XX e pode ser considerado um dos pais da arte abstrata.
A influência de Kandinsky na história da arte do Ocidente talvez resulte mais de seus trabalhos teóricos do que propriamente de suas pinturas. (Informações biográficas: edição Martins Fontes // Foto: Google Imagens).

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