Junta-Cadáveres (Juan Carlos Onetti)

Junta-Cadáveres (Juan Carlos Onetti)

Título: Junta-cadáveres
Título Original: Juntacadáveres
Autor: Juan Carlos Onetti
Tradução: Luis Reyes Gil
Prefácio: Francisco J. C. Dantas.
Ano de Publicação Original: 1964
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2009
Editora: Planeta do Brasil / Planeta Literário
Número de Páginas: 349
Gênero: Ficção Uruguaia

RESENHA – por Barbara Filippini.

Larsen, o próprio junta-cadáveres, é um dos personagens que dão caminho ao livro. Título que pode causar estranheza em um primeiro contato, mas se torna claro ao entender a narrativa. Larsen é um cafetão, moroso em suas atitudes, desiludido com o sobreviver.

O Junta coleciona putas velhas e pobres. Aquelas que já há tempos não possuem o vigor da flor no cabo, já estão murchas e arrancadas de si mesmas. A elas é que Junta dá uma extensão para continuar sobrevivendo, porque chamar isso uma segunda chance é mentir.

Junta-Cadáveres (Juan Carlos Onetti)
Foto: Barbara Filippini.

Muito do que está descrito nesta obra vem da própria vida de Onetti, mas não no sentido literal de ser cafetão. Sim no sentido de que o livro é cru, porém cozido – e o que quero dizer com isso é que o texto, regado de digressões, pontua personagens e apesar de se aprofundar é raso – mas brilhante, assim como Onetti.

O cenário arquitetado é a cidade fictícia de Santa María, a quase encarnada personagem. Cidade esta que já havia sido criada em seu livro “La Vida Breve” (1950) e que a partir daí é citada em outras obras. Cidadezinha inha em tudo: moral, costumes, viver. Junta chega lá com mais três mulheres desejoso de estabelecer um prostíbulo e as reações à isso são as mais diversas. De um silêncio que borbulha internamente até o apito que empurra o bico da chaleira de água quente. A putaria já estava lá naquele pedaço de terra antes de Larsen chegar, local cheio de putas e putos que em seu significado mais estrito da palavra derivado do latim quer dizer apenas meninas e meninos. Esses, os quais ainda buscavam uma falsa inocência por baixo da pele a fervilhar intrigas.

Mas ah, meu povo! Quem é que desvela seus segredos assim? Pois bem, desvela-se no movimento multiforme do texto, um fac-símile de sociedade atual. Com isso nutre-se até um pequeno sentimento por Junta, talvez o único ali que se demonstra fiel a si mesmo, mesmo moído e remoído e agarrado em ilusões. Porque não há como buscar clareza em Jorge, personagem de um dos núcleos da história, que passa a frequentar a casa da viúva de seu irmão Federico para satisfazer a desejos próprios apenas. Nem clareza em Marcos Bergner, falso moralista a perscrutar vidas alheias para que sigam suas regras de conduta e moral sem que necessariamente ele próprio as tenha que seguir. Também encobertos ficam Barthé e Díaz-Grey.

E a sociedade só fica a espreitar os mandos e desmandos alheios para que os possa julgar. Pois bem, lhes digo que os únicos a juntarem cadáveres ali são os que se vestem da fantasia da moralidade social, são os que depois se veem a juntar os próprios pedaços desmantelados no banheiro, onde se põe a sentar e chorar.

Cabe ressaltar também que a obra de Onetti é marcada pelo tema da morte, tudo acaba por se voltar à ela de modo triste. Em uma entrevista concedida por ele em 1977 para a TV Espanhola denominada “Encuentros con las letras” ele é questionado sobre o que é a morte e então responde que “a morte é um absurdo, é como se fosse um castigo. Digo que quem concebe uma criança está praticando um assassinato com efeito retardado”.  Há que se dizer que em seus personagens ele reflete essa ideia, pois estes seres vivem como se estivessem a esperar pelo pior, é basicamente isso que acontece em o junta-cadáveres. Em contrapartida ele também afirma que escrever é um ato de amor, com sensação de paz e tranquilidade. Esse balancear é o ponto forte da obra.

ALGUMAS NOTAS E INDICAÇÕES

Cheguei até este autor quando estava pesquisando em uma livraria a sessão reservada à autores de língua espanhola e então não posso deixar de citar que nessa categoria existem outros incríveis autores tais como Jorge Luis Borges (do qual o livro “O Aleph” foi resenhado aqui no site e você pode acessar clicando aqui), Felipe Polleri (autor do qual também foi resenhado um livro e você pode acessar clicando aqui) e Àngel Rama (livro resenhado clique aqui).

Devo pontuar também outros autores que serão oportunamente resenhados como Bioy Casares, Julio Cortázar, Ernesto Sábato, Horacio Quiroga e Jorge Mario Pedro Vargas Llosa (mais conhecido como Mario Vargas Llosa). Esses são apenas alguns poucos exemplos da vasta e riquíssima literatura latino-americana que temos disponível. Vale a pena conferir!

SOBRE O AUTOR – JUAN CARLOS ONETTI

onettiNasceu em 1909, em Montevidéu, no Uruguai e faleceu em 1994, em Madri, na Espanha. Foi escritor e jornalista, autodidata – não completou nem ensino médio, mas chegou a ser secretário de redação do jornal “Marcha”, funcionário da agência “Reuter” e Diretor da Biblioteca Municipal de Montevidéu. Para se sustentar tentou até o comércio ilegal de bebidas sendo contrabandista quando mais novo e depois passou a escrever. Foi casado quatro vezes, casou com sua quarta esposa em 1955 (Dorothea Muhr) e ficou com ela até o fim da vida. Chegou a ser internado em manicômio militar uruguaio devido à ditadura por ter participado do júri que premiou o conto “El Guardaespaldas” (“O Guarda-Costas) de Nelson Marra. Quando liberado foi morar em Madri exilado. Ganhou o Prêmio Cervantes de Literatura de 1980 e é considerado um dos maiores escritores uruguaios do século XX (Foto: Google Imagens).

Mais informações:
Livraria da Folha (site)
Ronaldo Costa Fernandes (blog)
Mundo de K (blog)
Juan Carlos Onetti (Wikipédia) 

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