capa do livro esperando godot samuel beckett cosac naify

Esperando Godot (Samuel Beckett)

Título: Esperando Godot
Título Original: En attendant Godot
Autor: Samuel Beckett
Tradução e Prefácio: Fábio de Souza Andrade
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2014
Editora: Cosac Naify
ISBN: 978-85-405-0726-5
Número de Páginas: 192
Gênero: Teatro / Crítica e Interpretação

Primeiramente um adendo: esta resenha faz parte do projeto LENDO COSAC 2017 (#lendocosac2017) idealizada por nós do Presente do Ler, para saber mais sobre o projeto clique aqui.

RESENHA – por Barbara Filippini

Não há como falar de Esperando Godot sem spoiler, ou seja, sem que se revele o conteúdo do livro. Porém, aqui o que faço é uma crítica e para tanto é preciso ter lido a obra ou então estar ciente de que aqui se fazem pontuações que podem lhe influenciar a leitura, caso ainda não a tenha feito. Se está ciente disso, podemos prosseguir.

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Resenha sobre “Esperando Godot” – parte do Projeto #lendocosac2017 idealizado pelo Presente do Ler. (Foto por Barbara Filippini).

Ora, a peça inteira é uma suspensão do juízo com barras de fundação bem feitas. Não é contradição, a peça é isso e é aquilo, é antes e é depois, pois não tem tempo. É uma farsa ontológica. E longe disso ser uma crítica negativa. Não diria que a peça escrita é “sensacional” porque ela é à parte das sensações, é pensar. No começo acha-se estarem soltos os pontos da trama ou que há muitas repetições. Mas acredite em mim: não há.

Abstração. Ausência. Aquele mexer lá no fundo do ser racional, o nada existencial. BOOOM! É isso, aquela implosão do viver. Só se escuta o impacto por dentro do existir. Esperando Godot, de Beckett, é isso. É o pé conjunto de Vladimir e Estragon a amassar Pozzo-Lucky-menino-Godot.

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Fác-símile do caderno de direção com anoções manuscritas de Beckett, por ocasião da montagem alemã de 1975, dirigida pelo autor (Foto da edição feita pela Cosac Naify).

Já lhe explico:

Vladimir. Estragon. São dois, mas são um e são a generalidade da humanidade (e isso Beckett deixa entrever na página 117). Ser humano no sentido mais cru. Vladimir pode vir a ser a parte que vê detalhes bons, que lembra. Estragon de nada lembra, mas tenta se desgrudar de Vladimir de tempos em tempos, até a sorte o chuta. Entenda: Vladimir e Estragon são duas faces de um mesmo signo. Beckett alude à uma árvore, único elemento cênico, que em meio aos diálogos pode-se entender que tem galhos muito fracos para que Vladimir consiga se suicidar, mas em contrapartida tem galhos muito fortes para que Estragon se suicide. Enfim, acabam os dois por se equilibrarem um no outro, porque sem que um esteja junto ao outro não há como dar cabo da vida. A vida é o não suicidar-se e a objetificação do mundo é a árvore – a qual também muda da noite para o dia para denotar mais uma vez que o tempo se esvai e que a única coisa que sabe fazer a humanidade é equilibrar-se e esperar o breu. Pois nesse ínterim há nada.

“VLADIMIR: O certo é que o tempo custa a passar, nestas circunstâncias, e nos força a preenchê-lo com maquinações que, como dizer, que podem, à primeira vista, parecer razoáveis, mas às quais estamos habituados. Você dirá: talvez seja para impedir que nosso entendimento sucumba. Tem toda razão. Mas já não estaria ele perdido na noite eterna e sombria dos abismos sem fim? É o que me pergunto, às vezes. Está acompanhando o raciocínio?
ESTRAGON: Nascemos todos loucos. Alguns continuam.” (p.118)

Pozzo-Lucky-menino-Godot. Dirão vários críticos que são faces diferentes e individualizadas, atribuirão nomes como Deus, Diabo, morte ou seja lá o que forem para eles. Bem, eu digo que com eles Beckett, por meio de uma grande abstração maravilhosa, matou Deus uma segunda vez, o primeiro a fazê-lo foi Nietzsche. Digo de modo figurado, porque claro esta que Beckett essencializa seus personagens de unicidade, que nem persona são mais, mas entidade de interpretação. Quem criou e quem matou essa entidade foi sim a humanidade! E a pobre humanidade ignorante ainda espera, ainda espera Godot. Ainda cega Pozzo. Ainda sobrecarrega Lucky, ironicamente sortudo, com pesos desnecessários (Areia!) e o faz mudo. Ainda acredita que o menino consegue cuidar das cabras e das ovelhas. Ainda chama Pozzo de Caim e Abel – e nas mentes esperançosas, mesmo nomeado à esmo, creem que ele responde a todos.

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Beckett dirige Karl Raddatz (Pozzo) no Schiller Theater (Berlim, 1975) – Foto retirada da edição produzida pela Cosac Naify.

O ser humano sempre atrela a figura de sorte a uma entidade. Espera que ela chegue para tudo resolver. Mas não há que se esperar, porque no fim as cortinas caem e tudo se torna breu, sem aviso. Fim de peça. Assim, sem mais delongas. Sem hora marcada – não há tempo, nem lugar. Não haverá tempo para se retirar as botas e ficar a postos no local indicado, não há local indicado. Aliás, há que se citar o trocadilho do nome Godot, o qual vem de “Godillot” – que significa “Botas grosseiras”, espécie de coturno. Ah! A abstração… de “Ab-stratci”, extraídos, postos à parte.

A sorte, na figura de Lucky, é parte de Pozzo. É parte e é todo, porque não se dividem. A sorte é segurada com uma corda que lhe corta o pescoço – é Pozzo quem o comanda, e depois quando cego encurta ainda mais a rédea da sorte muda, velha e chicoteada. Se tentarmos subdividir essa unicidade podemos interpretar Pozzo como Deus autoritário (isso sem contar as mil e uma interpretações sócio-políticas que poderíamos entrever. Interpretações essas à parte, pois Beckett não as inferia).

A figura do chapéu coco é outra que aparece na peça – o chapéu, se colocado no que chamo de sorte (personagem Lucky) o faz pensar. Se tanto pensar o ser humano o que há de científico e racional, desatrela-se o fator sorte e o faz desfalecer, então cai por chão o fator divino. Em uma cena no primeiro ato, Lucky, utilizando o chapéu, se põe a pensar até a exaustão, mas Pozzo retira o chapéu e afirma autoritariamente dar o rumo à Lucky – porque sem o chapéu “ele nunca mais vai pensar” (p. 73). Uma cena interessante que também alude aos chapéus está no segundo ato no qual Vladimir e Estragon os trocam incessantemente, se utilizando do chapéu de Lucky que ficou no chão – bela cena de abstração do “pensar”.

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Beckett dirige Karl Raddatz (Pozzo) no Schiller Theater (Berlim, 1975) – Foto retirada da edição produzida pela Cosac Naify.

Outra “duplicidade” aparece na figura do menino (final do ato I). O menino afirma cuidar de cabras e vem dar recado de Godot: “virá no dia seguinte”. Também afirma ter um irmão que cuida de ovelhas, mas que nesse último Godot bate (p.82). Bem, não há que se dizer que o horário marcado é mero engodo porque isso é claro. O tempo se transcorre de alguma maneira por alusão ao nascer ou pôr do sol, sem nada específico, e o menino aparece novamente – só que nem Estragon lembra dele, nem o menino lembra de Vladimir e Estragon. O único que tem memória é Vladimir. Bem certo é pensar que o menino não existe e é mais uma esperança da parte de Vladimir em esperar o inesperado.

A figura dúplice do menino também pode ser atrelada facilmente à tríplice caracterização Godot/Pozzo/Lucky e render muitas análises de abstração. Uma delas é a de se interpretarmos Godot como figura da morte e entendermos os meninos como um só que cuidam tanto das cabras arredias quando das ovelhas (nada mais são que a própria humanidade) e o ligarmos ao signo Jesus, conseguimos também abstrair o sentido de que mesmo cuidando do rebanho ele recebeu flagelo e morte, mas ao seu lado apenas um dos dois ladrões crucificados lhe creditou verdade e foi salvo.

Outra vez: o acreditar e o entender cabe somente à humanidade.

SOBRE O AUTOR – SAMUEL BECKETT

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Samuel Beckett durante ensaios de Esperando Godot, sob direção de Roger Blin. Théâtre de France Odéon (Paris, 1961) – Foto retirada da edição produzida pela Cosac Naify.

Samuel Beckett foi um dos fundadores do teatro do absurdo e é considerado um dos principais autores do século 20. Sua obra foi traduzida para mais de trinta idiomas. Nasceu numa família burguesa e protestante, e em 1927 graduou-se em literatura no Trinity College de Dublin, onde estudou também italiano e francês.

Em 1928, foi lecionar em Paris, onde conheceu James Joyce, de quem se tornou amigo. Durante o ano de 1930 lecionou na Irlanda, nessa época escreveu o estudo crítico “Proust”, comentando a obra do grande escritor francês. No ano seguinte Beckett fixou residência em Paris e escreveu a sua primeira novela, “Dream of Fair to Middling Women”, que seria publicada somente depois de sua morte.

Em 1933, voltou a Dublin, por motivos familiares, mas retornou a Paris em 1938. Nessa época, levou, de um estranho, uma facada no peito e ficou gravemente ferido. No início da Segunda Guerra Mundial, Beckett vinculou-se à Resistência Francesa, juntamente com sua esposa, Suzanne Deschevaux-Dusmenoil. Em 1942 foi obrigado a fugir para Vichy, onde escreveu parte da novela “Watt”.

A partir de 1945, o seu idioma literário passou a ser o francês. Entre 1951 e 1953 escreveu uma trilogia (“Molloy”, “Malone Morre” e “L’Innommable”), cujo tema é a solidão do homem. Com “Esperando Godot”, Beckett iniciou, ao mesmo tempo que Ionesco, o teatro do absurdo. Posteriormente ainda escreveu, além de algumas obras narrativas, diversas peças teatrais, como “Fim de Festa”, “Ato sem Palavras” e “Os Dias Felizes”.

Em 1969, Beckett ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Durante a vida escreveu poemas e textos em prosa, como romances, novelas, contos e ensaios, além de textos para o teatro, o cinema, o rádio e a televisão.

Samuel Beckett morreu em 1989, cinco meses depois de sua esposa. Foi enterrado no cemitério de Montparnasse. (Biografia do Autor retirada do site UOL educação)

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