cosmos kosmos witold gombrowicz

Cosmos (Witold Gombrowicz)

por Juliano Filippini

Título: Cosmos
Título Original: Kosmos
Autor: Witold Gombrowicz
Tradução: Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá
Ano de Publicação Original: 1965
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2007
Editora: Companhia das Letras
Número de Páginas: 191
Gênero: Romance polonês

Uma história narrada por um estudante de Varsóvia que aproveita um período de folga para realizar um “retiro” no campo, onde coincidentemente (a primeira coincidências de todas as milhares que acontecerão durante o livro), encontra um conhecido, Fuks, e juntos saem a procura de uma hospedagem.

Ao se ler o livro está-se dentro da mente, um tanto emaranhada do narrador – ou talvez como qualquer outra mente – que absorve todos os detalhes do espaço que o rodeia, tudo vira objeto. A grama, a árvore, o pardal, o arame, o rato, a chaleira, a mão, a boca, a outra boca, uma profusão de bocas e de mãos, todas deslocadas de seus sujeitos e, justamente por isso, conectadas. Ou – por que não? – justamente por isso, desconectadas.

Conexão é algo de extrema importância para o narrador, beirando até ao erótico. Todas as coisas podem vir a ser conexas, a depender de quem as conecta. No caso, ele mesmo. O modo como elas são conectadas também pode mudar, ou ser mudado, ou reinventado, bem como criado, talvez até transformado.

Percebe-se a exigência do narrador (cujo nome é citado apenas duas vezes no decorrer do livro e que, justamente por isso, parece ser indiferente) em desconstruir tudo em pequenas partes, unindo-as a outras partes de forma a ter lógica e fazer algum sentido ao menos para ele. Havendo, assim, alguma causa para o efeito presenciado.

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Foto: Barbara Filippini

O que se nota, entretanto, é que a desconstrução de objetos, a transformação dos objetos em pistas com a intenção de encontrar verdades veladas, ou verdades reais, acaba servindo simplesmente à pessoa que as une, e que as conecta da forma que melhor conseguir. O próprio narrador, embora não se dê conta, acaba percebendo a absoluta inutilidade do exercício mental que realiza em todos os momentos do seu dia, tal com se vê em determinada parte do livro:

“oh, dizemos ‘floresta’, mas o que quer dizer isso?, de quantos pequenos detalhes, insignificâncias e partículas se compõe a folhinha de uma árvore? Dizemos ‘floresta’, mas essa palavra envolve algo estranho, desconhecido, remoto. A terra. Torrões. Cascalho. Um belo dia você está descansando entre coisas comuns, cotidianas, com as quais conviveu desde a mais tenra infância – grama, arbustos, cachorro (ou gato), cadeira –, mas tudo muda quando você se dá conta de que cada um desses objetos é um exército descomunal, um enxame inesgotável…”

Tem-se o mundo, todos os detalhes do mundo, todas as conexões que se pode fazer, e desfazer, e em razão disso, não se tem nada, e vai-se a lugar algum. Pode-se dar um galo à Asclépio, em vez disso, como cita o narrador, teremos galinha para o jantar.

MINHA OPINIÃO SOBRE A OBRA

Um livro sobre tudo e sobre nada. Foi essa a impressão que tive ao ler Cosmos. Esse foi o primeiro livro que li de Witold Gombrowicz. Ao terminar de ler não consegui encontrar palavras para descrever o maravilhamento (talvez seja essa a palavra) causado. Certamente foge ao que se está acostumado a ler. Em algumas passagens lembrei de Beckett, principalmente em razão do jogo de palavras, dos transtornos mentais, da ironia e do humor. Mas não é Beckett. Nem melhor, nem pior. Simplesmente diferente – e incrível! Um autor que deve ser lido.

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Foto: Barbara Filippini

SOBRE O AUTOR – WITOLD GOMBROWICZ

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Foto: Google imagens

Nasceu em 1904, na Polônia. Estou direito na Universidade de Varsóvia, além de Filosofia e Economia em Paris. Em 1939, logo antes da invasão da Polônia pela Alemanha nazista, embarcou em um cruzeiro para Buenos Aires e, impedido de voltar a seu país, acabou passando 24 anos na Argentina, em extrema pobreza. Ali escreveu boa parte de sua obra, como os romances Transatlântico (1952) e Pornografia (1960), e três volumes de diários. Na volta à Europa, radicou-se na França e encontrou grande reconhecimento crítico. Recebeu o Prix International de Littérature por Cosmos. Morreu em 1969, em Vence, na França. (biografia retirada da orelha do livro)

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