capa foto livro a casa das belas adormecidas

A Casa das Belas Adormecidas (Yasunari Kawabata)

Título: A Casa das Belas Adormecidas
Título Original: Nemureru Bijo
Autor: Yasunari Kawabata
Tradução: Meiko Shimon
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2004
Editora: Estação Liberdade
Número de Páginas: 128
Gênero: Ficção japonesa

capa foto livro a casa das belas adormecidas
Foto: Barbara Filippini.

SOBRE O LIVRO
Sinopse retirada da obra

É objeto de consenso na crítica literária mundial que Yasunari Kawabata descreveu com meticulosa concisão as profundezas da alma feminina e revelou o corpo da mulher em seu mais sutil esplendor. Dono de uma capacidade de observação única, nenhum detalhe, nenhuma verdade escapam de seu olhar incomum. Em A Casa das Belas Adormecidas, Kawabata dedicou-se obsessivamente a esta marca de sua literatura. Imbuído do matsugo no me, que talvez pudéssemos traduzir por “o olhar derradeiro”. Kawabata nos dá a impressão de pintar em cores vivas as últimas imagens de quem vai partir desse mundo.

Imbuída de um erotismo inusitado, esta obra conta a história de Eguchi, um senhor de 67 anos que freqüenta a “A Casa das Belas Adormecidas”, uma espécie de bordel onde moças encontram-se em sono profundo, sob efeito de narcóticos. Kawabata procura desvendar o enigmático universo do corpo feminino em um culto ao belo e ao inalcançável.

A sexualidade na idade madura aflora nua e crua num cenário composto para o deleite de quem não pode mais procurá-lo por conta própria. Contrapartida mais fantasiosa e ao mesmo tempo mais radical, apresenta um inegável parentesco com Diário de um Velho Louco, de Jun’ichiro Tanizaki, outro grande mestre da literatura japonesa moderna. Se este último trata da sensualidade a priori contida que acomete um idoso no cotidiano, Kawabata nos leva aqui em singela exploração sensorial do corpo feminino oferecido em estado de torpor controlado. Os meandros da sexualidade – assim como a inexistência dela – em situações limite, da repressão do desejo e do autocontrole exacerbado compõem um jogo perverso que assume todo seu significado quando o protagonista tem de lidar com a noção de virgindade em seu sentido mais amplo. Temos aqui um indício de até que ponto Kawabata, sempre fiel a si mesmo, foi deliberadamente aos alicerces das estruturas mentais. Yukio Mishima, que louvava Kawabata, escreveu de forma reveladora em seu prefácio à edição norte-americana desta obra: “e será que a impossibilidade de obtenção não coloca definitivamente o erotismo e a morte no mesmo nível? E se nós romancistas não estamos do mesmo lado da ‘vida’ (se estamos confinados a uma abstração de certo tipo de neutralidade perpétua), então ‘a radiação da vida’ somente pode aparecer onde morte e erotismo caminham juntos”

RESENHA
por Barbara Filippini

O livro é pequeno, mas denso. A forma de escrita é envolvente e quando menos se percebe estamos viajando ao longo do imaginário que as palavras despertam. Sou suspeita a falar porque eu amo o jeito que o Yasunari Kawabata escreve e o indicaria para qualquer pessoa. A escrita é muito suave e fluente e também muito apreensiva e enigmática. Li o livro na edição da Estação Liberdade e além da leitura incrível ainda pude aproveitar uma edição que presenteia o leitor.

É necessário que se leia este livro sobre lentes definidas, mas nem por isso “certas”. Ora, a lente principal do autor é a visão de uma sociedade da década de 60, na qual o pensamento que reinava era o de submissão da mulher. Nesse sentido o livro nos coloca em uma posição desconfortável porque nos faz avaliar a situação do protagonista e todas suas conjecturas sobre a idade e o erotismo, mas também faz com que não prestemos atenção ao papel que é dado à mulher no sentido de que a leitura nos embala e faz com que nos voltemos para os tormentos vividos por um idoso – já sem acesso ao erotismo, totalmente tomado pela impotência psíquica e corporal.

Na trama, as mulheres têm mero papel de objeto, servem apenas para satisfação de desejos masculinos. Nesta casa as meninas são drogadas para que passem a noite toda dormindo e desta forma fiquem na cama com os clientes, normalmente velhos e impotentes, os quais só podem tocá-las e nada mais. Ao acordarem as moças não têm lembrança de nada e assim toda noite.

Há que se tomar cuidado para ler a obra de uma maneira crítica a fim de aproveitar todas as formas de pensamento e indagações que precisamos responder em nós mesmos. Por mais que a mulher, no livro, seja tratada como objeto e isso seja algo a se repudiar, devemos tomar para nós essa ofensa e nos questionarmos sobre como agimos em relação a esse tema tão sensível. Em nosso âmbito pessoal, respeitamos as mulheres?

Também em relação ao erotismo na velhice é bom que analisemos qual nossa ação para com os idosos na sociedade. Você já parou para pensar nas vontades e desejos que essas pessoas têm? Hoje se encontram na idade avançada, mas já foram jovens, e ainda sim resguardam memórias e vontades que subsistem.

Utilize todo o pensamento trazido pelo livro para analisar o seu papel na sociedade. Também me incluo nisso, pois não são raros os momentos em que caio em armadilhas no nosso sistema social. Temos que questionar sempre e não deixar de pormenorizar qualquer informação adquirida. O conhecimento tem que ser lapidado porque é necessário que vejamos o verdadeiro brilho do saber dentro de nós mesmos, sem que sejamos enganados por meras pedras empoeiradas.

SOBRE O AUTOR – YASUNARI KAWABATA

foto perfil yasunari kawabataPrêmio Nobel de 1968, Yasunari Kawabata é considerado um dos representantes máximos da literatura japonesa do século XX. Nascido em Osaka em 1899, interessou-se por livros ainda adolescente, principalmente clássicos do Japão, que viriam a ser uma de suas grandes inspirações.

Kawabata estudou literatura na Universidade Imperial de Tóquio e foi um dos fundadores da Bungei Jidai, revista literária influenciada pelo movimento modernista ocidental, em particular o surrealismo francês. Acompanhado de jovens escritores, defenderia mais tarde os ideais da corrente neossensorialista (shinkankakuha), que visava uma revolução nas letras japonesas e uma nova estética literária, deixando de lado o realismo em voga no Japão em prol de uma escrita lírica, impressionista, atravessada por imagens nada convencionais.

Ao contrastar o ritmo harmônico da natureza e o turbilhão da avalanche sensorial, Kawabata forjou insólitas associações e metáforas táteis, visuais e auditivas que surpreendem por revelar os processos de fragilização do ser humano diante do cotidiano, numa composição surrealista de elementos da cultura e filosofia orientais, personagens acuados e cenários inóspitos.

Sua obsessão pelo mundo feminino, sexualidade humana e o tema da morte (presente em sua vida desde cedo, sob forma da perda sucessiva de todos os seus familiares) renderam-lhe antológicas descrições de encontros sensuais, com toques de fantasia, rememoração, inefabilidade do desejo e tragédia pessoal. Desgastado por excesso de compromissos, doente e deprimido, Kawabata suicidou-se em 1972.

Do mesmo autor (publicados pela Estação Liberdade): “O País das Neves”, “Kyoto”, “Contos da Palma da Mão”, “A Dançarina de Izu”, “O Lago”, “O Som da Montanha” e “O Mestre de Go”. (Informações biográficas retiradas da edição lida; foto: google imagens).

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3 opiniões sobre “A Casa das Belas Adormecidas (Yasunari Kawabata)”

    1. Obrigada, fico feliz que tenha gostado! Ainda não li esse livro do Gabriel Garcia Márquez, mas está na minha lista de leitura. Assim que ler quero fazer uma resenha também! – não sabia dessa informação que você falou, obrigada! 🙂

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