Nós e a Laranja

É inegável o caráter político dessas duas obras literárias: “nós” do russo Ievguêni Zamiátin e “Laranja Mecânica” do inglês Anthony Burgess. Essas obras nos apresentam abstrações importantíssimas no que diz respeito à estados totalitários e indivíduos manipulados.

Dizem que “Laranja Mecânica” foi inspirado em “nós”, particularmente não posso confirmar nada por carecer de fontes materiais, mas concordo com o fato de ambas se banharem nas mesmas águas. Comecemos por “nós”.

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Capa de “Nós” do autor russo Zamiátin (Editora Aleph)

“Nós” é uma distopia altamente irônica e, por isso mesmo, maravilhosa. Ela se passa em um século distante em que as casas agora são todas de vidro, portanto deixando transparecer tudo que se faz, e que tudo é comandado por um Estado Único. Diversas obras já trazem esse recheio, porém os pequenos detalhes da obra de Zamiátin o fazem um clássico a ser lido pelos amantes de distopias (e também pelos que ainda não conhecem esse gênero – é uma abstração política incrível!)

A narrativa é feita em primeira pessoa por D-503. Nesses tempos em que a história se ambienta não existem mais nomes, apenas números. D-503 conforme vive inserido nesse Estado Único escreve suas ações em folhas em uma hora que lhe é liberada ao lazer. O Estado é único porque, como o nome mesmo já diz, há apenas ele e é a ele que todos devem seguir, caso contrário o “mal” é irradicado pela raiz. Isso mesmo que você pensou: não obedeceu, morre. Te lembra algum período histórico pelo que passamos e que começa com naz e termina com ismo? Isso mesmo. Aliás, é incrível o livro ter essa aura, pois foi escrito em 1923!!! Portanto, antes da 2ª Guerra Mundial.

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Contracapa de “Nós” (Editora Aleph)

O governo totalitário chamado Estado Único alega fazer tudo que faz pelo bem da sociedade. Alega ter encontrado o que é felicidade e mantê-la para a população. Para isso priva todos de direitos fundamentais. São cortadas a liberdade, imaginação, expressão, individualidade, ir e vir. A vida fica totalmente submetida ao controle estatal, o qual também dita a hora disponível ao lazer e ao sexo. O Estado torna-se dono da vida das pessoas – não há mais noção de dignidade. A imaginação, além de privada é taxada como doença.

Percebi que na edição da Editora Aleph há uma sutileza, não sei se isso tem a ver com o autor ou é decorrente da obra original, mas achei genial! Há uma mudança de fontes nas letras impressas conforme a mudança de pensamento do narrador. Até a página 206 (final da 26ª anotação) o narrador ainda esta submerso no que o Estado Único lhe cobra e lhe conduz – basicamente uma lavagem cerebral governamental e até aqui é usada uma fonte para a letra impressa. A partir da 27ª anotação muda-se a fonte (da página 207 até a página 300) e há um despertar por parte de D-503, ele se dá conta das suas amarras durando até a 38ª anotação quando ele novamente fecha os olhos e a fonte da letra impressa volta a ser aquela primeira… Sensacional!

Ora, ora… mas o que “nós” tem a ver com “Laranja Mecânica”? Percebeu que ali em cima eu falei sobre lavagem cerebral? Pois bem, aí está o ponto de encontro principal entre essas duas grandes obras. Em “Laranja Mecânica” também temos narração em primeira pessoa pelo jovem Alex – nome escolhido a dedo pelo autor Anthony Burgess. Alex se decomposto e analisado pode vir a ser “a”+ “lex”, ou seja, “a lei”. É irônico, pois Alex e seus amigos viviam justamente fora da lei.

Aqui nessa obra há a vivência de um adolescente no que viria a ser uma mistura de uma cidade inglesa com a juventude dos anos 20 de uma cidade russa e por isso mesmo não a considero uma distopia. O autor não imagina um futuro deslocado e possível e sim uma mistura de décadas e costumes de sua época com críticas ferrenhas aos modos de governo. A linguagem utilizada por Alex e seus amigos é chamada de Nadsat, inspirada em “adolescentes” russos e misturada ao modo de falar dos ingleses mais velhos que trabalhavam em fábricas e se comunicavam com a forma de falar cockey (quase um segundo sotaque londrino).

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Capa de “Laranja Mecânica” (Editora Aleph)

Alex vivia totalmente fora da lei, conseguia dinheiro por meio de assaltos e não se preocupava em matar pessoas – assim como seus amigos. Ele e seu grupo aterrorizavam os locais por onde passavam e viviam assim tranquilamente. Isso não impedia que Alex fosse conhecedor de música clássica e atribuísse beleza a isso. Essas duas formas de viver se complementavam em sua vida. Até o momento em que ele é preso e vive essas torturas, que antes eram por ele perpetradas, dentro do regime prisional – o qual supostamente deveria reabilitar os presos para a sociedade. A partir daí decorre-se a história até o momento de ele vir a ser cobaia em um experimento chamado Ludovico. Nesse experimento, os médicos do Estado se utilizam do aprendizado por associação. Ministram altas doses de remédios que causam mal estar à Alex e o submetem a vídeos de pessoas sendo torturadas, estupradas etc. Pior: tudo isso em conjunto à música clássica. O Estado transforma Alex em alguém apto à viver em sociedade… será? A liberdade de escolha de Alex é diminuída à reflexos biológicos pré-escolhidos, ou seja, em verdade não há mais liberdade/livre-arbítrio. O título “Laranja Mecânica” evidencia-se aqui. A laranja, que por dentro é orgânica e suculenta, passa a ser só casca, por dentro o estado insere suas engrenagens torpes na movimentação dos indivíduos transformando-os em autômatos.

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Contracapa de “Laranja Mecânica” (Editora Aleph)

Chegamos ao ponto que eu quero evidenciar, dentre outros milhares que dariam um livro comparativo. Em “Nós” o personagem D-503 é totalmente tolhido de seu livre-arbítrio e em “Laranja Mecânica” Alex passa pela mesma situação. Veja, não são descrições iguais e nem formas iguais de lavagem cerebral – o que quero que você perceba é o ponto tocante ao Estado totalitário. Até que ponto o Estado tem direito de intervir na vida de um ser humano? Em suas escolhas ou modos de viver?

O Estado totalitário em primeira vista irá lhe apresentar fórmulas mágicas para uma boa formulação de sociedade, para fazer com que você acredite que ele possui a receita da felicidade. Questione-se, pense, “criticize” tudo de informação que lhe chega aos ouvidos, aos olhos, às mãos. Não seja parte da massa que não raciocina. Esse tipo de literatura serve para você abrir a mente e questionar.

Mais informações:
Livro Nós (Editora Aleph) 
Livro Laranja Mecânica (Editora Aleph) 
livro laranja mecânica

Foto: Barbara Filippini.

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2 Resultados

  1. Já tinha vontade de ler o Laranja Mecânica, agora fiquei com vontade de ler Nós. Parabéns pela resenha!

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