“A Fórmula Preferida do Professor” e a outra forma de ver a matemática

Título: A Fórmula Preferida do Professor
Título Original: Hakase no Aishita Sûshiki
Autora: Yoko Ogawa
Tradutor: Shintaro Hayashi
Ano de Publicação Original: 2003
Ano de Publicação desta edição: 2017
Editora: Estação Liberdade
Número de Páginas: 232
Gênero: Romance Japonês
*exemplar cedido pela editora.

Resenha por Barbara Filippini

a fórmula preferida do professor

Foto: Barbara Filippini.

Para quem acompanha o Presente do Ler a Yoko Ogawa não é figura estranha por aqui. Eu já havia resenhado o livro “Museu do Silêncio” (você pode acessar clicando AQUI). Para começar, vamos aos pontos positivos.

A escrita de Yoko Ogawa é totalmente encaixável no tipo Literatura de Entretenimento e, dentro desse universo, ela flui muito bem. O que eu entendo por esse tipo de escrita? Algo feito de forma leve, sem muitas preocupações com abstrações, críticas, fundo filosófico ou coesão acirrada. É um livro para você ler em uma sentada sem muitos comprometimentos, é quase como assistir TV. Milhares de pessoas gostam desse tipo de escrita e se você é uma delas essa é uma boa pedida.

Outros pontos positivos: 1. A edição feita pela editora Estação Liberdade é impecável e você terá um excelente material em mãos, é de excelente qualidade de tradução e produção!; 2. O livro apresenta a matemática sem aquele véu negro que a encobre. Aqui ela nos é presenteada, como foco principal, de forma acolhedora.

Agora vamos aos pontos negativos: meu primeiro contato com a escrita de Yoko Ogawa foi um tanto quanto desconfortável porque o gênero em que se encaixa a literatura dela, o de literatura de entretenimento, não é bem um gênero que me deixe muito feliz. Vou explicar porquê. Esse tipo de escrita deixa muitas lacunas abertas e isso me incomoda sobremaneira. Não sei se é porque sou muito ligada à Filosofia ou porquê não consigo me desprender do fato de que o livro deve me passar alguma mensagem a se abstrair, ou mensagem informativa ou até mesmo técnica e/ou estética (estético no sentido filosófico do termo)… mas me sinto mal lendo um livro em que se lê “só por se ler”, sem nenhum outro porém. É como se uma folha de caderno fosse arrancada e não fossem retiradas aquelas rebarbinhas soltas – e mesmo assim a escrita na folha continuasse. Aquelas rebarbinhas ali me incomodam, parecem pontas que não se fecham.

Para ligar esta minha reclamação aberta à algo mais concreto e direcionado ao enredo do livro, antes preciso lhe apresentar o panorama geral de “a fórmula preferida do professor”: a trama fica em torno da matemática e ligados à ela agem 4 personagens – 1. O professor, que possui um problema de memória derivado de um acidente de 1975 e, por conta disso, só consegue se lembrar de 80 minutos vividos e então retorna do zero, estando sempre preso à 1975; 2. A cunhada do professor, que mora no mesmo terreno que ele, mas separada por uma grade e um denso jardim mal cuidado; 3. A empregada que trabalha em um regime de associação com a empresa Akebono e presta serviços ao professor, tendo a premissa de não incomodar a cunhada; 4. O filho da empregada que foi nominado de Raiz pelo professor, por ter a cabeça achatada lembrando o símbolo matemático.

Voltando à analogia da folha de anotações com rebarbas de papel. A folha de anotações é história de “a fórmula preferida do professor” e as rebarbas são as lacunas que ficam abertas e que tanto me incomodam na literatura de entretenimento, fazendo com que falte coesão. O algo mais concreto esta neste exemplo aqui: o professor tem uma memória limitada, mas em diversas partes da história vê-se claramente que ele passa o dia inteiro lúcido enquanto a empregada presta os serviços, o que seria impossível!; o professor às vezes tem atitudes que não condizem com alguém na condição dele; Vários pontos da trama ficam em suspenso ou são arremedos desnecessários na história.

Finalmente: essas são as minhas sensações e considerações sobre a obra, mas cabe a você analisar se Yoko Ogawa é o seu tipo de escritora ou não.

SOBRE A AUTORA – YOKO OGAWA

yoko ogawaNasceu em Okayama, Japão, em 1962. Sua vocação leitora foi despertada precocemente por clássicos infantis, graças a um sistema de assinatura de livros de que a família dispunha. Gosta de citar “O Diário de Anne Frank”como uma referência decisiva no sentido de perceber a escrita como via de autoexpressão. Estudou escrita criativa e publicou, até hoje, cerca de 20 livros, entre ficção e não ficção. Arrebatou todos os prêmios referenciais do meio literário japonês, entre os quais o Akutagawa pela novela “Ninshin Karenda (Diário da Gravidez)”, o Yomiuri por “Hakase no aishita sushiki (A fórmula preferida do professo)”, o Izumi Kyota por “Burafuman no maiso (o tenterro do Brahman)” e o Tanizaki por “Mina no Koshin (A Marcha de mina). “A fórmula preferida do professor” foi vertida para o cinema por Takashi Koizumi, ex-assistente de Akira Kurosawa. Yoko Ogawa vive atualmente em Ashiya, Hyogo – nas proximidades de Kyoto – com marido e o filho. (Informações da biografia retiradas da orelha do livro desta edição lida).

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