Luz em Agosto (William Faulkner)

Título: Luz em Agosto
Título Original: Light in August
Autor: William Faulkner
Tradução: Celso Mauro Paciornik
Ano de Publicação Original: 1932
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2009 (2º ed)
Editora: Cosac Naify
Número de Páginas: 440
Gênero: Tragédia

Capa do Livro "Luz em Agosto" de William Faulkner. (Foto: Barbara Filippini)

Capa do Livro “Luz em Agosto” de William Faulkner. (Foto: Barbara Filippini)

Resenha por Juliano Filippini

No livro “Do Espiritual na Arte”, Wassily Kandinsky escreve que o artista, ao pintar uma tela o faz até que ela não mais permita qualquer pincelada, até que se mostre inteiramente acabada e completa, de modo que seu autor nada poderá acrescentar, sob pena de destruí-la. É exatamente isso que se sente ao terminar de ler “Luz em Agosto” de William Faulkner. Acontecimento futuro algum interessa. A vida das personagens já teve um fim, embora continuem vivas (ou sobrevivendo); todo o terror, toda a tragédia, toda a violência e intolerância possíveis, institucionalizadas ou não, já foram postas em prática naquelas duas semanas de agosto.

Um livro lindo! No qual embora o tempo real se desate em apenas duas semanas, vivencia-se mais de trinta anos, acompanhando as vidas das personagens, que se desatam em uma serie desconexa e desordenada no tempo, no qual um capítulo não necessariamente se encerre no outro, como Faulkner costuma fazer, mas no qual vai-se percebendo a existência de conexões e possibilitando que se conheça cada vez mais o interior das personagens.

O modo como o autor escreve é maravilhoso. Até a metade do livro (que tem 440 páginas) não se tem certeza da existência de alguma personagem principal, e apesar de em outros textos falarem que seriam três, acredito que o número seja maior. Tal se dá com o auxílio de um narrador omnisciente, que conhece não só os detalhes da história mas também o que se passa na mente das personagens, apresentando estados mentais que se passam de forma caótica e truncada, laçando mão do que se denominou fluxo da consciência (stream of consciousness ou stream of thought), como se nota na seguinte passagem (p. 202):

“Muito provavelmente não, não mais do que um gato se lembraria de outra janela; como o gato, ele também parecia enxergar na escuridão enquanto se movimentava sem erro para a comida que desejava como se soubesse onde ela estaria; isso, ou talvez estivesse sento manipulado por algum agente desconhecido. Comeu algo de uma tigela invisível, com dedos invisíveis: comida invisível. Não se preocupou com o que seria. Nem soube que havia imaginado ou provado até a mandíbula parar subitamente no meio da mastigação e o pensamento voar para o vintecinco anos antes na rua, para além de todas as esquinas imperceptíveis de amargas derrotas e mais amargas vitórias, e oito quilômetros além de uma esquina onde costumava esperar nos terríveis primeiros tempos de amor; por alguém cujo nome esquecera; oito quilômetros ainda mais além ele foi Saberei num minuto. Comi isso antes, em algum lugar. Num minuto saberei memória conectando sabendo eu vejo eu vejo eu mais do que vejo ouço eu ouço eu vejo minha cabeça curvar eu ouço a voz dogmática monótona que eu acho que jamais deixará de continuar e continuar para sempre e espiando eu vejo o projétil indomável a barba rente limpa eles também curvados e eu pensando Como ele pode estar tão sem fome e eu sentindo minha boca e língua gotejando o sal quente da espera meus olhos provando o vapor quente do prato “É ervilha”, disse em voz alta. “Santo Deus. Ervilhas silvestres cozidas com melaço”.

Deixando a questão estética um pouco de lado; quantas sensações experienciadas enquanto o lia! Maravilhoso! Impossível lê-lo sem chorar ou ao menos lacrimejar em algumas partes, diante das injustiças causadas pela ignorância de algumas (senão quase todas) personagens, ou pelo fato de acharem saber mais do que sabiam. E como fica parecendo que tudo estava traçado para acontecer exatamente da forma que aconteceu desde o início da vida das personagens, e que independentemente do que elas fizessem nada iria mudar a tragédia que a vida delas fora.

E no fim, parece que mesmo aquelas personagens que estavam ali, só de passagem e que em ato mínimo acabaram auxiliando o fim de tudo, e que se sentiram importantes por isso, também tinham vidas, de certo modo, insignificantes. E o pior de tudo é que apesar de se demonstrarem felizes e superiores a tudo e a todos, aparentemente tinham consciência de serem apenas mais um, no meio de todo o teatro e o fazer-se-ver-diferente-do-que-se-é. Aparência sobreposta a realidade. Realidade subjugada por aqueles que preferem o aparente, o chamado ‘justo’ medido sem qualquer medida. Salva-se a vida pela morte, pelo sacrifício, pela inércia, pela fuga…

SOBRE O AUTOR – WILLIAM FAULKNER

William FaulknerWilliam Faulkner (1897-1962) nasceu em New Albany, Mississippi, em uma família tradicional e decadente. Publicou seu primeiro romance, Soldier’s Pay, em 1926, e, três anos depois, com o lançamento de O Som e a fúria, iniciou a fase mais consagradora de sua carreira literária, que culminou com o grande sucesso de Palmeiras Selvagens (1939). Dez anos depois recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Durante as décadas de 40 e 50, além de publicar contos, novelas e romances, escreveu roteiros para Hollywood e colaborou com o Departamento de Estado na difusão da cultura americana, visitando vários países como palestrante, inclusive o Brasil (1954). (Informações biográficas retiradas da edição lida; foto: google imagens).

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2 Resultados

  1. Samantha M. disse:

    Olá, Juliano,

    nossa, esse livro parece mesmo ser muito bom, principalmente por essa forma de construção que você mencionou de ir se interligando aos poucos, além da narrativa em fluxo de consciência e esse turbilhão de emoções, claro.

    Sempre vejo ótimos comentários sobre Faukner, mas ainda não li nada dele. :/

    Beijo,

    Samantha Monteiro
    Degrau de Letras

    • Olá, Samantha!

      O livro é muito bom mesmo, daqueles que jamais se esquece de ter lido!

      “Palmeiras Selvagens”, embora tenha uma narrativa um pouco mais linear, também é excelente e surpreende com o encontro de histórias que não se esperava acontecesse. Super recomendados!

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