A Casa das Belas Adormecidas (Yasunari Kawabata)

Título: A Casa das Belas Adormecidas
Título Original: Nemureru Bijo
Autor: Yasunari Kawabata
Tradução: Meiko Shimon
Ano de Publicação Original: 1961
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2004
Editora: Estação Liberdade
Número de Páginas: 128
Gênero: Ficção japonesa

capa foto livro a casa das belas adormecidas

Foto: Barbara Filippini.

SOBRE O LIVRO
Sinopse retirada da obra

É objeto de consenso na crítica literária mundial que Yasunari Kawabata descreveu com meticulosa concisão as profundezas da alma feminina e revelou o corpo da mulher em seu mais sutil esplendor. Dono de uma capacidade de observação única, nenhum detalhe, nenhuma verdade escapam de seu olhar incomum. Em A Casa das Belas Adormecidas, Kawabata dedicou-se obsessivamente a esta marca de sua literatura. Imbuído do matsugo no me, que talvez pudéssemos traduzir por “o olhar derradeiro”. Kawabata nos dá a impressão de pintar em cores vivas as últimas imagens de quem vai partir desse mundo.

Imbuída de um erotismo inusitado, esta obra conta a história de Eguchi, um senhor de 67 anos que freqüenta a “A Casa das Belas Adormecidas”, uma espécie de bordel onde moças encontram-se em sono profundo, sob efeito de narcóticos. Kawabata procura desvendar o enigmático universo do corpo feminino em um culto ao belo e ao inalcançável.

A sexualidade na idade madura aflora nua e crua num cenário composto para o deleite de quem não pode mais procurá-lo por conta própria. Contrapartida mais fantasiosa e ao mesmo tempo mais radical, apresenta um inegável parentesco com Diário de um Velho Louco, de Jun’ichiro Tanizaki, outro grande mestre da literatura japonesa moderna. Se este último trata da sensualidade a priori contida que acomete um idoso no cotidiano, Kawabata nos leva aqui em singela exploração sensorial do corpo feminino oferecido em estado de torpor controlado. Os meandros da sexualidade – assim como a inexistência dela – em situações limite, da repressão do desejo e do autocontrole exacerbado compõem um jogo perverso que assume todo seu significado quando o protagonista tem de lidar com a noção de virgindade em seu sentido mais amplo. Temos aqui um indício de até que ponto Kawabata, sempre fiel a si mesmo, foi deliberadamente aos alicerces das estruturas mentais. Yukio Mishima, que louvava Kawabata, escreveu de forma reveladora em seu prefácio à edição norte-americana desta obra: “e será que a impossibilidade de obtenção não coloca definitivamente o erotismo e a morte no mesmo nível? E se nós romancistas não estamos do mesmo lado da ‘vida’ (se estamos confinados a uma abstração de certo tipo de neutralidade perpétua), então ‘a radiação da vida’ somente pode aparecer onde morte e erotismo caminham juntos”

RESENHA
por Barbara Filippini

O livro é pequeno, mas denso. A forma de escrita é envolvente e quando menos se percebe estamos viajando ao longo do imaginário que as palavras despertam. Sou suspeita a falar porque eu amo o jeito que o Yasunari Kawabata escreve e o indicaria para qualquer pessoa. A escrita é muito suave e fluente e também muito apreensiva e enigmática. Li o livro na edição da Estação Liberdade e além da leitura incrível ainda pude aproveitar uma edição que presenteia o leitor.

É necessário que se leia este livro sobre lentes definidas, mas nem por isso “certas”. Ora, a lente principal do autor é a visão de uma sociedade da década de 60, na qual o pensamento que reinava era o de submissão da mulher. Nesse sentido o livro nos coloca em uma posição desconfortável porque nos faz avaliar a situação do protagonista e todas suas conjecturas sobre a idade e o erotismo, mas também faz com que não prestemos atenção ao papel que é dado à mulher no sentido de que a leitura nos embala e faz com que nos voltemos para os tormentos vividos por um idoso – já sem acesso ao erotismo, totalmente tomado pela impotência psíquica e corporal.

Na trama, as mulheres têm mero papel de objeto, servem apenas para satisfação de desejos masculinos. Nesta casa as meninas são drogadas para que passem a noite toda dormindo e desta forma fiquem na cama com os clientes, normalmente velhos e impotentes, os quais só podem tocá-las e nada mais. Ao acordarem as moças não têm lembrança de nada e assim toda noite.

Há que se tomar cuidado para ler a obra de uma maneira crítica a fim de aproveitar todas as formas de pensamento e indagações que precisamos responder em nós mesmos. Por mais que a mulher, no livro, seja tratada como objeto e isso seja algo a se repudiar, devemos tomar para nós essa ofensa e nos questionarmos sobre como agimos em relação a esse tema tão sensível. Em nosso âmbito pessoal, respeitamos as mulheres?

Também em relação ao erotismo na velhice é bom que analisemos qual nossa ação para com os idosos na sociedade. Você já parou para pensar nas vontades e desejos que essas pessoas têm? Hoje se encontram na idade avançada, mas já foram jovens, e ainda sim resguardam memórias e vontades que subsistem.

Utilize todo o pensamento trazido pelo livro para analisar o seu papel na sociedade. Também me incluo nisso, pois não são raros os momentos em que caio em armadilhas no nosso sistema social. Temos que questionar sempre e não deixar de pormenorizar qualquer informação adquirida. O conhecimento tem que ser lapidado porque é necessário que vejamos o verdadeiro brilho do saber dentro de nós mesmos, sem que sejamos enganados por meras pedras empoeiradas.

SOBRE O AUTOR – YASUNARI KAWABATA

foto perfil yasunari kawabataPrêmio Nobel de 1968, Yasunari Kawabata é considerado um dos representantes máximos da literatura japonesa do século XX. Nascido em Osaka em 1899, interessou-se por livros ainda adolescente, principalmente clássicos do Japão, que viriam a ser uma de suas grandes inspirações.

Kawabata estudou literatura na Universidade Imperial de Tóquio e foi um dos fundadores da Bungei Jidai, revista literária influenciada pelo movimento modernista ocidental, em particular o surrealismo francês. Acompanhado de jovens escritores, defenderia mais tarde os ideais da corrente neossensorialista (shinkankakuha), que visava uma revolução nas letras japonesas e uma nova estética literária, deixando de lado o realismo em voga no Japão em prol de uma escrita lírica, impressionista, atravessada por imagens nada convencionais.

Ao contrastar o ritmo harmônico da natureza e o turbilhão da avalanche sensorial, Kawabata forjou insólitas associações e metáforas táteis, visuais e auditivas que surpreendem por revelar os processos de fragilização do ser humano diante do cotidiano, numa composição surrealista de elementos da cultura e filosofia orientais, personagens acuados e cenários inóspitos.

Sua obsessão pelo mundo feminino, sexualidade humana e o tema da morte (presente em sua vida desde cedo, sob forma da perda sucessiva de todos os seus familiares) renderam-lhe antológicas descrições de encontros sensuais, com toques de fantasia, rememoração, inefabilidade do desejo e tragédia pessoal. Desgastado por excesso de compromissos, doente e deprimido, Kawabata suicidou-se em 1972.

Do mesmo autor (publicados pela Estação Liberdade): “O País das Neves”, “Kyoto”, “Contos da Palma da Mão”, “A Dançarina de Izu”, “O Lago”, “O Som da Montanha” e “O Mestre de Go”. (Informações biográficas retiradas da edição lida; foto: google imagens).

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2 Resultados

  1. castrojr disse:

    Excelente resenha! Esse foi o livro que inspirou Gabriel Garcia Márquez a escrever o seu “Memórias de minhas putas tristes”.

    • Obrigada, fico feliz que tenha gostado! Ainda não li esse livro do Gabriel Garcia Márquez, mas está na minha lista de leitura. Assim que ler quero fazer uma resenha também! – não sabia dessa informação que você falou, obrigada! 🙂

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