O Outro Pé da Sereia (Mia Couto)

Título: o Outro Pé da Sereia
Título Original: o Outro Pé da Sereia
Autor: Mia Couto
Ano de Publicação: 2006
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2011
Editora: companhia das Letras
Número de Páginas: 331
Palavras-chave: romance moçambicano (grafia do português de Moçambique) / Literatura Moçambicana

Resenha por Barbara Filippini

FullSizeRender-2 (1)

Foto: Barbara Filippini

Terminei esse livro hoje pela madrugada e logo fiz a resenha, e para a minha surpresa soube que justamente hoje, dia 02 de fevereiro, é dia de Iemanjá – a rainha do mar, ou rainha das águas. Ela tem grande ligação com a história deste livro – o qual fala também de uma rainha das águas, só que nominada Nzuzu. As águas são um aspecto muito importante em muitas tradições africanas e também foram as que levaram as pessoas que “não voltaram” ao longo da história. Levaram os muitos escravos que morreram. É o caminho. Fica a reflexão.

SOBRE O LIVRO – RESENHA 

Muito mais profundo que um simples conto – ou “estória”, como denominavam os dicionários antigos – esse livro é um caminho árduo por entre as feridas ainda abertas que repousam sobre o continente africano. Repousar no sentido de se estar morto ou se estar dormindo, mas mesmo assim retomar a ideia da morte. Assim, pesado mesmo.

Todos eles estão na parede dos ausentes, aquela parede onde residem as imagens dos que já se foram – todos nós já nos fomos em algum aspecto. Todos deixaram um pouco de si naquelas terras, naquelas águas, naquelas crenças. Porque é de pessoas que se faz o mundo, e é assim que o autor transpassa e entrelaça a história, tão lúdica, tristeza quase infantil de tão dolorosamente sutil que existe ali. As covas com as lembranças de um passado de lutas, naquela terra que teve sobre si as tristezas de todo um povo. De todos nós, porque somos todos um.

IMG_1224 (1)

Foto: Barbara Filippini

Tristeza. Não há alegria na ignorância, do não saber de quem é retratado na história e também na vida. Tão grande é dor que ali faz morada que dentro do vocabulário dessas pessoas, tão simples e genuínas, não há o suficiente para expressar o que se quer dizer de modo que a fala fique recheada como os pensamentos imagéticos que eles têm dentro de si. Não resta mais nada a eles não ser crer – tentar segurar-se à fluidez dos pensamentos que se escapam, das memórias que vão sumindo em meio a incertezas. Crer que se pode esquecer a dor, a escravidão, a morte, as correntes que se quebraram, mas que ainda existem. Crer, porque o crer está no coração de cada um – e os que ainda não conseguiram crer na esperança caem em derradeira loucura (como vocês perceberão ao ler o personagem que faz o barbeiro).

Às vezes a verdade crua não é a necessária, precisa-se de um pouco de místico aqui, um pouco de luz ali. Não enterremos nossas estrelas. Ora, a única estrela que deve ser enterrada ali é a da devassidão humana, das minas terrestres que ainda se encontram em alguns territórios africanos – por exemplo, em divisas de países evitando a passagem. Das guerras que mataram vários e deixaram apenas ruínas e memórias que tentam esquecer.

Sim, em torno daquela “árvore do esquecimento”* (também citada no livro de forma maravilhosamente fantástica) nós rodamos várias vezes para tentar olharmos para nós mesmos afim de apagar as dores, para conseguir seguir em frente. Aquele povo fez isso, mas mesmo assim teve suas estrelas enterradas. O passado ruim de dores foi sepultado, mas junto com ele boa parte do seu povo também foi. Não vivemos em plena alegria, mas devemos escolher viver no que melhor que podemos ser para que possamos proporcionar isso ao mundo.

IMG_1225 (1)

Foto: Barbara Filippini

Aquelas pessoas do livro, principalmente uma passagem do personagem Matambira (pugilista), retratam muito a dor do preconceito, da escravatura, das guerras… há também a lembrança das crianças muito magras, muito sujas de terra, fome. A tristeza de pessoas que permanecem na cegueira de que tudo aquilo está certo porque não podem escolher uma vida diferente. Tudo lhes é tolhido. É muito dolorosa essa visão de que isso ainda acontece.

o pugilista olhou os próprios punhos como um arqueiro contempla o arco quebrado. Depois falou. Não sabia a brasileira o quanto ele, Zeca Matambira, sofrera por ser negro.
– Você também foi discriminado?
Não, ele sofrera fora de vergonha. Vergonha dos outros negros, pobres, desgraçados, grosseiros e, afinal, tão parecidos com ele. Fizera tudo para se distinguir. Todavia, aquela parecença não deixava nunca de lhe ser recordada. As ironias que a vida encerra: com um simples soco Matambira derrubava o mais agressivo dos adversários. Mas ele nunca tinha sido capaz de superar o seu acanhamento. E recordou o creme para aclarar a pele, os produtos para desencrespar o cabelo, a ocultação da sua origem humilde. Sim, a sua existência tinha sido um permanente e nunca alcançado disfarce.
– por causa desse disfarce eu não a beijei, Rosie.” * 

Não se deve apagar o passado – longe disso. Não se deve esquecer no sentido de sumir com tudo da mente, mas sim no sentido de saber que as cicatrizes estão lá para lembrar que conseguimos sarar um pouco as feridas, e que conseguiremos vencer. Para lembrar que ainda há esperança em viver. Não enterremos as estrelas da esperança, deixemos apenas os destroços materiais lá nas covas, a luz das boas lembranças deve permanecer acesa em nós. E a energia, para que se possa fazer valer a isonomia, igualdade, respeito, deve estar sempre aqui – o passado está ali para nos fazer ver que existiram erros e não devem mais ser repetidos. Estamos aqui, somos mais do que corpos, somos luz, somos estrelas. Quando morrermos nossos “destroços” serão consumidos pelo tempo, mas nossa luz perpetuará pelas gerações seguintes.

FullSizeRender-1 (1)

Foto: Barbara Filippini


ALGUNS TEMAS MENCIONADOS NO LIVRO 

– a MBIRA é um instrumento muito citado pelo autor no decorrer no livro. É um instrumento que atravessou povos e gerações e resiste até hoje, possuindo diversos nomes (likembe, mbila, mbira huru, mbira njari, mbira nyunga nyunga, sansu, zanzu, karimbao, marimba, karimba, kalimba, okeme, ubo, sanza, marímbula). Era e ainda é geralmente usado em rituais

– a ÁRVORE DO ESQUECIMENTO realmente existiu. Para que entendamos o seu significado, antes tem-se que lembrar que os escravos vinham de diversas localidades do continente africano e no caminho aos locais de exploração existiam entrepostos, dos quais o mais conhecido era o Zomaï (que significa “lá onde a luz não penetra”). A árvore do esquecimento era uma dessas paradas…

“Do mercado ao porto de embarcação, eram previstas algumas paradas. Em torno da chamada Árvore do Esquecimento, os escravos deviam passar nove vezes, e as escravas, sete, para se esquecerem de sua terra, de sua identidade cultural e de suas lembranças geográficas. Essa árvore foi plantada em 1727 pelo rei Agadja. Hoje, em seu lugar, se encontra uma estátua de sereia -pois a sereia é o símbolo de quem vive no mar e o destino final dos escravos.” **

Existiu também a ÁRVORE DO RETORNO

“Os escravos retidos nos entrepostos Zomaï -uma espécie de antecâmara do navio negreiro-, onde não penetrava nenhuma luz, eram submetidos a toda sorte de promiscuidade. E sofriam ainda nova triagem. Os mortos, assim como os mais fracos, eram jogados numa vala comum, com animais.
Os que resistiam eram levados até a Árvore do Retorno e circulavam três vezes em torno dela, na esperança de retornarem. A idéia era que, tendo feito as três voltas em torno da árvore, garantiriam que seus espíritos voltassem à terra natal após as suas mortes.
Mas era somente um retorno espiritual, não físico, pois em seguida eram conduzidos à Porta do Não-Retorno, hoje representado por um imenso monumento tombado pela Unesco, que marca a praia de Uidá.
O Memorial da Lembrança, no local da antiga vala comum, é um local de reflexões, recolhimento e meditação.
A Porta do Não-Retorno era o local de embarque da última viagem dos escravos. Eles sabiam que dali não haveria retorno. E é ali que todo dia 10 de janeiro, desde 1992, dia declarado feriado no Benin, ocorre a grande festa do culto Vodun, reabilitado como a religião majoritária dos beninenses e de grande parte do continente africano.”***

Abaixo segue um vídeo com uma música de mbira:


SOBRE O AUTOR – MIA COUTO

220px-Mia_Couto_cropped

Fonte: Google

Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955. Estudou medicina antes de se formar em biologia. Atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental. Em 1999, o autor recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra; em 2007, o prêmio União Latina de Literaturas Românticas. (informação retirada da orelha do livro – edição que li).

*FONTE: O outro pé da Sereia – página 294.
**FONTE: Folha de S.Paulo
***FONTE: Folha de S.Paulo

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *