Um Cântico para Leibowitz (Walter M. Miller Jr.)

Título: Um Cântico para Leibowitz
Título Original: A Canticle for Leibowitz
Autor: Walter M. Miller Jr.
Ano de Publicação Original: 1959
Ano de Publicação no Brasil (esta edição): 2014
Editora: Aleph
Número de Páginas: 400
Palavras Chave: Ficção Fantástica Norte-Americana / Distopia / Ficção
*exemplar cedido pela editora.

Resenha por Barbara Filippini

É um livro denso, bem escrito e cheio de ideias subliminares. Tem aspectos nietzschianos (já leram “Assim Falou Zaratustra” do Nietzsche? Ele tem muito a ver com peregrino que aparece no livro (mais adiante)). Acredito que “Um Cântico para Leibowitz” tem muitos atributos e é por isso que vou dissecá-lo para você passando pela edição maravilhosa produzida pela Editora Aleph, história presente no livro e também um pouco sobre o autor.

capa do livro um cântico para leibowitz

Livro “Um Cântico para Leibowitz” edição feita pela Editora Aleph.

Edição feita pela Editora Aleph: a edição ficou maravilhosa. A capa foi muito bem elaborada com um monge segurando um crânio e de cabeça para baixo. A trama te dará os aspectos que confirmarão cada pedacinho dessa capa. Ademais, para quem gosta de abrir bem o livro e dobrar a lombada pode fazer sem medo porque o livro é resistente e não vai descolar. É muito bom! As cores escolhidas também foram certeiras. Vale a pena adquirir e ter na coleção. A tradução feita pela Maria Silvia Mourão Netto também ficou impecável.

Esse livro traz diversas expressões em latim, mas não se apavore! A editora fez logo no final do livro um glossário para explicar tudinho. Assim você pode ter uma leitura muito mais rica!

abadia monte cassino

Abadia do Monte Cassino atualmente restaurada depois de diversas destruições. (Foto: Wikipédia).

Sobre o livro “Um Cântico para Leibowitz”:

Na fase inicial do livro, chamada Fiat Homo encontra-se um mundo resistindo ao holocausto nuclear tentando reter o conhecimento para que não se caia nas trevas da ignorância e da selvageria (sinto uma comparação com a Idade Medieval aqui). Este dano nuclear foi chamado “dilúvio de fogo” pelo autor e após ele perduraram diversos anos de degradação ao conhecimento já acumulado pela humanidade até então. É aqui que entra a Ordem Albertina de Leibowitz (que nessa primeira parte ainda não é “são”, visto que ainda não foi canonizado pela Nova Roma – ainda existente nesse período pós-apocalíptico). Esta Ordem acolhe monges que recolhem e preservam vestígios da cultura pré-nuclear, mas apenas os copiam e guardam sem se utilizarem do saber. O autor tenta deixar claro o aspecto de recomeço, mas ao mesmo tempo repetição da história. A história segue os mesmos passos de antes do dilúvio de fogo e assim sempre seguirá enquanto houver humanidade.

Centenas de anos após o holocausto nos é apresentado um jovem noviço, um personagem peculiar chamado Francis. Ele nos dá a sensação de pena misturada com compaixão perante a quase ingenuidade dele (leiam! Vocês vão se encantar). Durante um recolhimento, em meio ao deserto de Utah, Francis conhece um peregrino que lhe indica uma possível descoberta acerca do longínquo século XX. Detalhes sobre o peregrino e sobre o Francis? Só lendo!

Na segunda parte do livro, chamada Fiat Lux, vááários anos se passam e mostra-se a questão do poder e do saber (ora, ora… uma leve comparação com o nosso período de Segunda Grande Guerra? Acho que sim). Aqui começam a aparecer novos grandes cientistas, porém há quem os quer utilizar para canalizá-los em busca de poder político em vez de disseminar o conhecimento e o saber em prol da humanidade. É bem interessante observar o papel da ordem de São Leibowitz nesta parte do livro. Atentem para o fato de Leibowitz já ter se tornado “São” neste capítulo. Também fiquem atentos às entrelinhas, elas dizem muitas coisas!

Na terceira e última parte, chamada Fiat Voluntas Tua, apresenta-se um futuro longínquo cheio de tecnologias. Mas o mais interessante: a mente humana e as atitudes como sempre tolhidas e sem ater-se realmente ao saber e ao conhecimento.

É interessantíssimo ver que ao longo do livro o autor consegue deixar transparecer que o ser humano não retém e nem se utiliza do conhecimento em um sentido evolutivo próprio, pois sempre se autodiminui e destrói. Também percebe-se que ao longo da história certos personagens tomam proporções que nunca tiveram e são endeusados por conta disso, sem ao menos se tentar buscar o motivo, como se houvesse uma tentativa incessante de preencher um vazio divino que ninguém sabe ao certo qual é e sequer questiona-se sobre qual seria.

SOBRE O AUTOR – WALTER M. MILLER JR. 

escritor perfil walter miller jrCom essa obra aqui resenhada Miller Jr. ganhou o prêmio Hugo de 1961 como melhor romance. Dizem as biografias de Miller que ele era muito religioso por ser católico convertido em 1947, porém eu senti que em suas obras ele é muito irônico em relação a esse tema, tendo tiradas muito boas ao longo da, principalmente, primeira e segunda partes do livro. Miller também tinha uma noção cíclica da história – há indignação que por mais que haja um cataclisma nuclear e sobrevivam poucas pessoas, essas poucas pessoas irão começar a civilização da mesma maneira. Haverá sempre a igreja, o poder e o conhecimento. Além de que existirão aqueles que perceberão que o poder se sustenta com conhecimento (pode-se ver muito disso na segunda parte do livro).

Miller estudou na Universidade do Tennessee e no período da Segunda Guerra Mundial se alistou na Força Aérea Americana, no qual trabalhou como radiotelegrafista e participou de 53 bombardeios. Em uma dessas ações, para bombardear áreas, destruiu-se o Mosteiro Beneditino (abadia) de Monte Cassino, na Itália e Miller Jr participou. Dizem que esse bombardeio foi traumático para o escritor, mas acreditam mais que o trauma tenha sido relativo à religião, porém acredito que tenha sido por ser um local que continha muitos livros e conservava muitos conhecimentos (há reflexo disso neste livro). O trauma dele estava na destruição do conhecimento tão arduamente conseguido e também no fato de que não importa quão longe chegarmos, nós sempre nos autodestruiremos.

Sim, é pesado, é traumático e é bem essa a mensagem subliminar que senti no livro. Por isso mesmo acredito que o fim do autor, o suicídio, tenha se devido e muito a todo esse pensamento tão profundo da questão humana.

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